segunda-feira, 13 de abril de 2020

Símbolo no Rito Moderno

Simbologia


No âmbito do debate Maçônico, quando se conjugam Simbolismo e Rito Francês emergem frequentemente alguns lugares comuns, que não são mais do que o reflexo de ideias que se foram cristalizando ao longo do tempo, tendo vindo a alimentar várias vulgatas e preconceitos, sobre o caráter mais ou menos simbólico deste Rito.
Entre Irmãos praticantes de Ritos com expressão litúrgica mais extensa (tais como o REAA ou o RAPMM) predomina a opinião de que o Rito Francês é simbolicamente mais pobre, fundando-se a mesma sobretudo no aspecto mais “despojado” dos seus Rituais de Loja Azul.
Pelo contrário, muitos Irmãos obreiros de Lojas Francesas defendem que o mesmo se trata de uma forma mais ligeira e pragmática de fazer Maçonaria, na qual se perde menos tempo com aspectos simbólicos e rituais extensos, que já não são importantes para o aqui e agora.
O que há de verdade nestas suposições e, em que medida na prática atual, se deve contextualizar o papel do Símbolo no Rito Francês?
Para se tentar encontrar respostas para estas questões, teremos de as enquadrar num âmbito mais vasto, que passa naturalmente por uma reflexão relativa à função do Simbolismo na Maçonaria, em geral.
Tal como o pensamento maçônico, que se tem vindo a alterar em função dos sucessivos contextos sociológico-político-culturais que lhe são contemporâneos, também as opiniões dos Maçons no que concerne ao papel do Símbolo têm vindo a variar, e a diversificar-se ao longo do tempo.
Durante os primeiros 150 anos de Maçonaria Especulativa sobressaiu sempre a ideia de que os Símbolos Maçônicos eram uma chave de acesso a um conhecimento de Ordem Superior, inacessível aos profanos.
Esta suposição, epistologicamente, baseia-se no pressuposto de que o ser humano possui dois meios para procurar a Verdade – a Razão e a Intuição, e de que existiriam dois patamares de conhecimentos, sendo um deles acessível à inteligência racional do homem comum e, o outro apenas alcançável pela Intuição, guiada pelo método simbólico.
Nesta linha de ideias, que teve uma grande revigorarão na primeira metade do século XX com as perspectivas Wirthiana e Guenoniana, muito embora as diferentes posições sejam coincidentes no pressuposto de base de que o Simbolismo Maçônico é o meio de acesso privilegiado a verdades transcendentes, não são, todavia, nada consensuais no que concerne à natureza destas verdades.
Não existe, assim, na filosofia Maçônica que sustenta estas correntes de pensamento, uma definição única para a Verdade, para o Conhecimento, ou para a Transcendência, mas sim várias, em muitos casos inclusivamente incompatíveis entre si.
Uma concepção corrente, entre os que defendem estas teses, entende o Absoluto como sendo uma divindade revelada ou uma entidade simbólica (o Supremo Arquiteto do Universo), acendendo-lhe o Maçom através dos Símbolos, Mitos, e Alegorias, que dão corpo aos Ritos. Ainda hoje, este é o axioma de base que sustenta a Maçonaria Anglo-Saxônica, e os Ritos Continentais mais espiritualistas (RER e RAPMM).
Outra visão, também frequente, identifica este Absoluto como sendo algo de caráter misterioso, que foi perdido, e que só poderá ser reencontrado pela via iniciática, através da hermenêutica dos Símbolos.
Trata-se de uma perspectiva que se sustenta numa base de pensamento gnóstico, e que tem como exemplo mais marcante o ponto de vista de René Guenon, segundo o qual os Símbolos e os ritos iniciáticos consubstanciam a Tradição, permitindo a sua exegese a redescoberta de uma Tradição Primordial, que ultrapassa o que releva estritamente do humano.
Em correntes Maçônicas mais congruentes com visões ocultistas, este Absoluto é inclusivamente considerado de ordem mágica, tendo os Símbolos e os ritos o poder de conjurar forças superiores existentes no Cosmos, e de as utilizar para acender ao Conhecimento, projetando-o na vida diária de uma forma positiva. Foram defensores desta tendência Maçons como Martinès de Pasqually, Cagliostro ou Mesmer.
Por último, e como consequência de toda esta confusão de entendimentos, encontramos ainda no discurso Maçônico dos defensores do Símbolo – via de acesso ao Absoluto, quem identifique esta Transcendência com o Símbolo em si, caindo na mais perfeita simbolatria, numa floresta de redundâncias, e de conceitos vagos.
Em qualquer destes casos, o método de acesso a Conhecimento, seja ele qual for, é sempre o mesmo, e enquadra-se no conceito de misticismo, tal como o define André Lalande no seu “Vocabulário Técnico e Critico da Filosofia”, segundo o qual este consiste na “crença na possibilidade de uma união direta e intima do espírito humano ao princípio fundamental do Ser, união que constitui simultaneamente um modo de existência e um modo de conhecimento estrangeiros e superiores à existência normal”.
Na segunda metade do século XIX, muito por força da emergência de correntes filosóficas racionalistas, tais como o positivismo, e de preocupações no âmbito da laicização e da secularização da sociedade, o Simbolismo passou a ser encarado de forma diametralmente oposta, sendo visto como um método de trabalho ultrapassado, associado a reminiscências religiosas ou supersticiosas, que deveria pura e simplesmente ser abolido da Maçonaria.
Como consequência destas ideias, amputaram-se rituais, simplificaram-se as decorações dos Templos, reduziram-se os paramentos, informalizou-se o vestuário a usar nas Sessões, relaxou-se a prática, mas não se acabou, em absoluto, com as formas tradicionais de trabalho Maçônico.
Mais recentemente, no pós-segunda guerra mundial, surgiu uma nova visão do papel do Símbolo na vivência Maçônica, que tem sido responsável pelo recrudescimento do interesse pelo Simbolismo, entre os Maçons contemporâneos.
Esta atribui ao Símbolo um papel de ferramenta introspectiva, na exploração das profundezas do Ser, desempenhando assim uma função nuclear, no acesso ao Conhecimento pelo saber-Ser.
Encontramo-nos, pois, no domínio da procura de respostas a questões de ordem ontológica, relacionadas, no tempo e no espaço, com as envolvências do ser humano consigo próprio, com os outros e, com o Cosmos, numa demanda do Conhecimento e da Verdade, que lhe poderá ajudar a resolver conflitos existenciais, e a encontrar a Felicidade, através da construção de uma Espiritualidade própria.
Esta perspectiva, que filosoficamente não rejeita nem a possibilidade de acesso a um conhecimento de ordem superior, nem o racionalismo, mas que, pelo contrário, pretende ultrapassar estas vias através de uma demanda globalizante, encontra-se bem ilustrada por Michel Barat, quando refere que “Neste sentido, eu sou platoniciano, porque para mim também o simbolismo persegue o percurso racional para a verdade, e não contradiz em nada o esforço de racionalidade. Se se quiser reter bem as revoluções epistemológicas do século XX, um dos traços fundamentais da modernidade é precisamente a descoberta que o não-racional não é a negação da racionalidade, mas a abertura de um campo maior”.
Face a todo este amplo panorama, como contextualizamos o papel atual do Símbolo no Rito Francês, tendo em conta as suas idiossincrasias, fruto da sua base filosófica e, do seu percurso histórico?
Ao longo da história do Rito estiveram presentes várias destas visões do Simbolismo, encontrando-se as mesmas plasmadas nas sucessivas revisões dos Rituais dos seus Graus Simbólicos.
De Rito deísta, tal como configuram os seus rituais do final do século XVIII e da primeira metade do século XIX, a Rito profundamente marcado pelo positivismo, com acentuadas preocupações de laicidade, como emerge das revisões Amiable (1880 e 1887), Blatin (1907), e Gérard (1922), passando pelas perspectivas atuais nas quais, desde as revisões Groussier (1938 e subsequentes) e o aparecimento das variantes ditas “Tradicionais”, se assiste a uma recuperação do seu Simbolismo original, o Rito Francês esteve sempre muito consonante com as ideias dominantes dos sucessivos períodos que atravessou.
Não admira, pois, que o seu debate e reflexão filosófica tenham sempre estado muito focalizados para o aqui e agora, e para a ação na construção do Templo Exterior, tendo este aspecto sido muito refletido na visão que os seus praticantes têm vindo a assumir, no que concerne ao Simbolismo Maçônico.
Contudo, quem comparar os Quadros de Loja relativos aos primeiros três Graus do Rito Francês com os de outros Ritos tidos por mais simbólicos, poderá facilmente constatar que os símbolos envolvidos são, praticamente, os mesmos.
É certo que no discurso Maçônico neste Rito não se recorrem a analogias de origem alquímica, cabalística, ou templária, na medida em que a sua Maçonaria Azul se sustenta exclusivamente nos mitos da dualidade entre a Luz e as Trevas, na Construção do Templo de Salomão e, de Hiram.
Constitui também um facto que a base filosófica do Rito Francês, exclusivamente racionalista, pode limitar o campo de interpretação dos símbolos, na abordagem de questões filosóficas de foro mais ontológico, que não sejam acessíveis à razão.
Igualmente se constata que os rituais relativos aos seus Graus Simbólicos, em algumas das suas variantes, apresentam um corpo litúrgico mais despojado do que outras formas de prática Maçônica.
No entanto, em minha opinião, nenhum destes aspectos torna o Rito Francês mais pobre simbolicamente do que outros.
Um símbolo é sempre algo inteligível que se associa a uma ideia, um significante que pretende representar um significado.
Será no significante, ou no significado, que se encontra a verdadeira riqueza do Símbolo?
O que é que deve ser mais valorizada, a hermenêutica do Símbolo Maçônico em si, nas suas múltiplas possíveis interpretações, ou a reflexão sobre os Valores que o mesmo suscita?
Em minha opinião o Símbolo Maçônico é, fundamentalmente, uma ferramenta de reflexão filosófica, pelo que a valorização não deve estar centrada no mesmo “de per si”, mas sim na mensagem que transmite, uma vez que este constitui apenas um canal de comunicação.
Daí que, pessoalmente, entendo que não faz sentido comparar os Ritos Maçônicos em termos de riqueza ou pobreza simbólica, na medida em que são vias distintas, mas que na sua essência perseguem os mesmos objetivos de Libertação, Construção e, de Ligação pela Fraternidade.
Poder-se-á discutir se um sistema que permite um campo de interpretação dos seus símbolos mais estrito ou mais amplo será mais ou menos eficaz na focalização das suas exegeses para os aspectos mais essenciais a transmitir, mas esta é uma reflexão que deixo para cada um a fazer.
Em minha opinião considero que as diferentes formas de trabalho Maçônico são mais complementares do que antagônicas, possibilitando a sua coexistência que cada um encontre o Canteiro mais adequado às asperezas especificas da sua Pedra Bruta.
Tendo, pois, em conta que o Rito Francês, para além das suas dimensões filosófica e societária, não deixa de ter uma vertente simbólica, subsiste a questão relativa ao papel que nele hoje assume esta componente.
Atendendo a que não sustento que a Maçonaria, na sua concepção adogmática, seja uma religião substituída, ou uma anti-religião, mas sim uma não religião, sem prejuízo de não deixar de ser uma forma de Espiritualidade Laica, não me parece que continuem a fazer sentido, neste âmbito, visões místicas do Simbolismo.
No Rito Francês, em particular, sempre houve aliás uma preocupação de não se perderem de vista as questões da realidade concreta, como atesta a referência do “Régulateur du Maçon” segundo a qual o recipiendário, logo à entrada na Câmara de Reflexões, era confrontado com um esqueleto, ou um crânio, que “recordarão ao neófito as coisas humanas”.
No que concerne ao papel introspectivo do Símbolo, confesso a minha ignorância de Psicologia das “profundezas” para poder ter uma opinião cientificamente fundamentada, pelo que deixo aos Irmãos mais versados neste domínio a possibilidade de acrescentarem uma Pedra mais trabalhada do que a minha.
Parece-me, todavia, indiscutível, da minha vivência pessoal, que a percepção do Símbolo, sendo especificamente própria, não decorre de um processo estritamente consciente e racional, envolvendo componentes sensoriais, cinestésicas e, emocionais resultantes da prática de ritos iniciáticos, que se enquadram na estrutura ternária dos Ritos de Passagem, tal como foi tipificada pelos antropólogos Van Gennep e Victor Turner.
A Irmã Céline Bryon-Portet, investigadora no domínio das Ciências da Comunicação, realizou um interessante trabalho sobre o método Maçônico, no qual concluiu que “o ritual Maçônico assenta sobre a intuição que o Homem consiste numa vasta estrutura de relações externas e internas, cujo aperfeiçoamento depende de uma alquimia comunicacional a vários níveis. Propondo um modelo de interação global, fundado não apenas no “dizer”, mas também no “ver”, no “fazer” e no “sentir”, ele utiliza o princípio de triangulação da utilização da palavra, da gestualidade assim como da gestão espaço-tempo, que visa a produzir uma dialética visível-invisível, transcendência-iminência, teoria-prática. In fine, este deve engendrar uma triangulação do agente ele próprio (…) quer dizer uma transmutação do indivíduo pela reconciliação dos contrários que opera o modelo ternário, preludio à unificação final do Ser.
Como ela, acredito que os ritos Maçônicos, na sua essência de Simbolismo em movimento, podem realmente propiciar uma alteração ontológica de quem os pratica, fundamentando esta suposição apenas no facto de as minhas opiniões se terem alterado substancialmente, no decurso do meu percurso iniciático, relativamente a várias questões, anteriormente tidas por indiscutíveis.
O Símbolo não tem só pois, por missão, transmitir um conceito mas, acima de tudo, de colocar aqueles a quem se apresenta num estado de receptividade, de intuição e, de reflexão filosófica, permitindo-lhes a realização de um trabalho sobre si próprios, que os levará, progressivamente, a construir a sua Ética pessoal, e a interiorizar Valores, que lhe permitirão alterar a sua ação, e a sua relação com os outros.
Por isso concordo triplamente com a Irmã Céline Bryon-Portet, quando ela refere que “O ritual Maçônico não pode assim ser benéfico desde que não seja rigoroso e que o seu sentido seja perfeitamente compreendido”.
A prática inconsciente dos ritos Maçônicos apenas pode dar origem a condicionamentos do tipo Pavloviano, à semelhança do que sucede em determinados rituais militares, bloqueando todo o processo de Transmissão. A execução relaxada dos mesmos implicará sempre deficiências nesta Transmissão.
Não é difícil de constatar que mesmo nas suas formas mais despojadas, continuamos a encontrar no Rito Francês as características especificas do método Maçônico, referidas pela Irmã Céline Bryon-Portet, que o tornam num modelo de comunicação singular, que propicia operar-se um processo de mediação-transformação, no âmbito do próprio participante.
Como tal, podemos considerar-lhe aplicáveis as considerações atrás tecidas, no que concerne ao papel do Simbolismo nos Ritos Maçônicos.
Outro aspecto importante é que decorre da Simbólica um imaginário comum, partilhado por todos os Maçons, ao qual vão buscar uma linguagem específica, baseada na Construção, na Geometria, nos Números, que os une e identifica, reforçando a sua coesão de grupo, e facilitando a aproximação e o dialogo entre Irmãos.
A Simbólica constitui, pois, um patrimônio partilhado, de caráter Universal, com efeitos não menosprezáveis como elemento de ligação entre os Irmãos que, a coberto, se unem debaixo da mesma Abóbada Celeste para trabalharem do Meio Dia à Meia Noite, e para unirem as mãos na mesma Cadeia de União, na qual assumem um compromisso coletivo de irradiarem fora do Templo as verdades ali adquiridas, em prol do Progresso da Humanidade, e da aproximação de todos os seres humanos pela Fraternidade.
Por último, é importante não esquecer que a natureza polissêmica intrínseca do Símbolo favorece o aparecimento de interpretações diferentes, as quais quando confrontadas, lhe conferem um valor pedagógico elevado na interiorização da Tolerância.
Na hermenêutica simbólica todas as opiniões estão certas, desde que respeitem os valores Maçônicos, e o contexto do Grau no qual se trabalha, pelo que cada Irmão, quando intervém, não contradiz, apenas acrescenta. A liberdade que possui, para formular a sua interpretação, serve também para ilustrar/reforçar o caráter adogmático da Maçonaria.
São, pois, estes os aspetos que, em minha opinião, definem o papel atual do Simbolismo no Rito Francês, em cuja prática deve ser racionalmente compreendido, e corretamente vivenciado, de modo a poder ser interiorizado de uma forma útil.
Concordo, pois, por três vezes três, com o comentário do Irmão Jean-Charles Nehr (um dos refundadores do Grande Capitulo Geral do Rito Francês do GOdF), que refere “No meu sentido, este regresso do Símbolo pode também ser considerado como o simples restabelecimento de uma verdade de evidencia: o que faz o Maçom deve ser bem feito, ou então ele não merece usar o titulo de Maçom do qual se honra. Isto é válido também para o Simbolismo e o Ritual (…) é necessário praticá-los com a maior dignidade. É o mais elementar dos sinais de respeito do Maçom por si próprio, pelos outros Maçons, e pelos profanos que pedem para ser recebidos como Maçons”.
O Simbolismo está, assim, na essência do método Maçônico, pelo que negligenciá-lo, no meu entendimento, não é fazer Maçonaria, é tão somente perder tempo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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– Bouchard Maurice e Michel Philippe ”Rit français d’origine 1785: dit Rit Primordial de France”, Dervy éditions, Paris, 2014;
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– Lalande André ”Vocabulaire technique et critique de la philosophie”, PUF, Paris, 2010;
– Lévy Jean-Bernard ”Mites et rites: à quoi ça sert”, Dervy éditions, Paris, 2013;
– Mainguy Iréne ”La Symbolique maçonnique du troisième millénaire”, Éditions Dervy, Paris, 2006;
– Marcos Ludvic ”Histoire Illustrée du Rite Français”, Éditions Dervy, Paris, 2012;
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– Trébuchet Louis ”La spiritualité: à quoi ça sert”, Dervy éditions, Paris, 2013;
– Vincent Frédéric ”Les Symboles Maçonniques: à quoi ça sert”, Dervy éditions, Paris, 2013;
– Wirth Oswald ”La Franc-Maçonnerie rendue intelligible à ses adeptes”, Éditions Dervy, Paris, 2007.

As bases filosóficas do Rito Moderno

Teoría de la planificación Educativa: BASES FILOSÓFICAS DE LA ...
Nosso Rito pode, sem dúvida nenhuma, orgulhar-se de seu papel de vanguarda junto à plêiade de Ritos praticados pela Franco-Maçonaria mundial.
De fato, grande parte dos feitos heróicos encabeçados por maçons ou dos movimentos sociais nascidos em lojas maçônicas, tiveram grande envolvimento com o ideário preconizado por nosso rito.
O Rito Moderno, desde sua criação oficial no ano de 1761, sempre caracterizou-se por um pensamento progressista, uma filosofia coerente, uma lógica arrebatadora e, principalmente, pela defesa corajosa e pujante da Liberdade Absoluta de Consciência.
Caberia perguntar: onde o Rito Moderno abeberou-se para formar seu “arsenal explosivo” de idéias?
A resposta para essa pergunta, nos faz retornar ao século XVII, época do genial Francis Bacon, chamado com justiça de pai do enciclopedismo moderno.
Bacon, além de estadista, foi o primeiro exemplo notável da tendência empirista do pensamento inglês e, ainda mais significativamente, foi o profeta e protetor da revolução científica nascente.
Bacon foi o primeiro autor a tentar identificar os métodos adequados para uma ciência bem sucedida, uma vez que uma ciência cujas investigações se dão desorganizadamente e feitas por um excêntrico qualquer, não podem trazer resultados significativos.
Bacon assume em “New Atlantis” (1627) a tarefa de apelo e encorajamento à colaboração dos sábios, defendendo que é ao Estado que compete criar as instituições de investigação e ensino de que a ciência moderna necessita.
Para Bacon, a prosperidade e o bem estar da comunidade dependem dos esforços dirigidos para o progresso da pesquisa científica, uma idéia completamente nova para a época. Na obra supra-citada, Bacon defende a idéia que é melhor várias pessoas trabalhando em conjunto do que uma isoladamente, para a prática das ciências e o desenvolvimento da sociedade como um todo. A “Casa de Salomão”, instituição científica utópica descrita em seu “New Atlantis”, clama pela aplicação da ciência e a fundação de uma academia de cientistas. Notemos aí a semelhança da simbologia aplicada por Bacon e a simbologia maçônica. Nossas lojas devem estar baseadas no Templo de Salomão, mas não o da antigüidade obscurantista e crédula, e sim do preconizado por Bacon, centro de irradiação da luz, da razão e da ciência para o mundo.
A idéia baconiana de uma “república dos sábios” figurada pela simbólica “ilha de Bensalém, inspirará o movimento nascente de constituição das academias, através de Leibniz e Oldenburg (1615-1677), primeiro secretário da Royal Society e grande admirador de Bacon.
Muitos outros grandes vultos seguiram os passos de Bacon e a abertura da “via racional” para o progresso da humanidade deu a sólida estrutura para a formação filosófica do Rito Moderno. Vejamos brevemente alguns deles.
Pierre Bayle (1647 – 1706), filósofo francês, foi o precursor do ceticismo de Hume, refutou a doutrina de Spinoza a respeito da criação. A importância de Bayle se encontra na enorme influência que seus escritos tiveram, inclusive sobre os enciclopedistas que, sob muitos aspectos, o imitaram.
Bayle lançou a idéia de que nenhum dogma é solidamente fundamentado na razão, declarando a inutilidade completa das disputas teológicas em que se envolviam calvinistas, jansenistas, molinistas sobre a graça, o livre-arbítrio etc… Bayle, apesar de calvinista, defendia a tolerância religiosa e o respeito à consciência individual.
John Locke (1632-1704) foi filósofo, político e médico. Destacou-se tanto com sua filosofia política, quanto com sua teoria do conhecimento, estabelecendo os limites do inteligível aos humanos.
Locke, ao contrário de Descartes que considerava que o conhecimento, originava-se de um conjunto de idéias claras e distintas, inatas em nossa mente, considerava que a filosofia deveria ser erigida sobre a razão e sobre o senso comum e não sobre especulações metafísicas, uma vez que o conhecimento não pode ser adquirido antes da experiência, esta a fonte da razão.
Além disso, Locke advogava uma ampla tolerância religiosa e filosófica, dando à consciência o direito de revoltar-se contra qualquer sistema opressor e intolerante.
David Hume (1711-1777), filósofo escocês, nascido em Edimburgo, irmão maçom iniciado na “St.Mary’s Chapel Lodge” iniciou seus estudos na área jurídica mas logo apaixonou-se pela filosofia. Hume é um empirista radical, o naturalista mais influente e completo da filosofia moderna, além de uma figura essencial do iluminismo.
A ética de Hume vê o pensamento moral como a expressão de sentimentos que sofrem uma evolução devido à nossa necessidade de cooperação social. Assim, a moral não seria originada em uma “lei divina” mas sim na necessidade humana de conviver em sociedade.
Hume encara a ciência como a busca pela descoberta de princípios simples que nos permitiriam discernir a ordem em meio ao caos. Assim, para Hume os acontecimentos naturais são, em si mesmos, “irregulares e separados”, e a arte científica consiste em detectar os padrões em que se inserem.
Bernard de Mandeville (1670-1733), filósofo holandês, de expressão inglesa, também empirista, fundamentou a moral nas tendências do homem, e não sobre um raciocínio filosófico-metafísico. Também não fundamentou a sociedade, seu progresso ou declínio nos princípios gerais morais de valor absoluto, mas em fatores, experimentalmente detectados, dos interesses e similares.
Charles Louis de Secondat, barão de Montesquieu (1689-1755), nascido nobre, iniciado na Maçonaria no dia 12 de maio de 1730 na Horn Tavern Lodge, desenvolveu uma profunda admiração pela Revolução Inglesa de 1688 e pelos ideais constitucionalistas de tolerância e liberdade a ela associados. Sua obra prima “O Espírito das Leis” (1748) introduziu um traço positivista na discussão das leis das nações, que era até então terreno para vários tipos de deduções teológicas e racionalistas. Montesquieu atribui o sistema legal dos diferentes países a acasos externos, como a geografia e o comércio.
Foi o maior responsável pela teoria da tripartição dos poderes do Estado (Legislativo, Executivo e Judiciário) e o maior mestre em Direito Constitucional que a humanidade já viu.
Adam Smith (1723-1790), filósofo e economista escocês, membro da loja maçônica “St. Mary Chapel”, foi influenciado pelo empirismo moral de Hume, apoiando-se na experiência para estabelecer uma ética. Admitindo a liberdade, formulou os conceitos de liberalismo político e econômico. Defendia que o melhor meio de um Estado desenvolver a economia é deixá-la desenvolver-se livremente de acordo com suas leis naturais, com um mínimo de fiscalidade e interferência.
Jeremy Bentham (1748-1832), pensador, jurisconsulto e economista inglês, nascido em Londres. É considerado um dos últimos representantes da Escola Moralista Inglesa. Defendeu a moral utilitarista, em que a utilidade do indivíduo e da sociedade são o fundamento da norma moral. A utilidade dos objetos é definida pela sua capacidade de produzir prazer e de evitar a dor, ou o infortúnio. A sociedade ideal é a que permite a felicidade do indivíduo sem comprometer o bem estar coletivo. Suas idéias terão continuidade com James Mill e Stuart Mill.
John Tolland (1670-1722), filósofo e Teólogo, filólogo e político da Irlanda. Fez estudos filosóficos em Glasgow, Edimburgo, concluindo em Leiden, Holanda.
Seu livro mais famoso “Christianity not mysterious” (1696) foi mandado queimar pelo Parlamento Irlandês e colocado fora da lei na Inglaterra.
Tolland defendeu uma religião natural, sem sobrenaturalismo. Foi um dos mais representativos deístas e o primeiro a ser chamado “livre pensador”. Negou a autenticidade da revelação. Tolland foi, juntamente com Shaftesbury, um dos principais artífices da transição do deísmo para o agnosticismo.
Anthony Ashley Cooper, terceiro conde de Shaftesbury (1671-1713), filósofo inglês, teve a John Locke como preceptor.
Shaftesbury foi um dos principais representantes da moral do sentimento, foi sempre um otimista metafísico, mas assim como Bayle, se revelou cético frente às religiões sobrenaturalistas, limitando-se à religião racional de deísmo.
Voltaire, pseudônimo de François-Marie Arouet(1694-1778), foi um filósofo empirista, deísta, liberal que cedo se tornou um livre pensador. Permaneceu três anos na Inglaterra e lá absorveu a filosofia empirista inglesa, que difundiu a seguir na França, onde até então predominavam várias formas de racionalismo cartesiano. É sua a frase que ainda soa atual: “para um só filósofo ainda há hoje cem fanáticos”
Meus irmãos, não querendo me estender em demasia, finalizo por aqui esse mostruário de celebridades intelectuais que deram contribuições essenciais ao nosso rito. Se houvesse tempo, teríamos que citar toda a nata intelectual da Revolução Francesa, todos os grandes cientistas desde Galileu, Copérnico, Giordano Bruno, Newton, Tycho até os atuais como Stephen Hawking, Feynman, Planck, Heinsenberg, entre tantos outros que ainda levam corajosamente o estandarte da ciência e da razão em um mundo, apesar de toda a evolução, ainda estranhamente assombrado pelos demônios do passado.
Nosso rito não precisa de mistificações para ser grandioso, não precisa de invencionices e enxertos para ser especial e não precisa de crendices para atestar sua mais pura essência maçônica. O mais maçônico entre os maçônicos.
Nosso rito só precisa de homens compenetrados de seus ideais, homens dispostos a muito mais do que a mera repetição mecânica de fórmulas rituais. Nosso rito precisa dos espíritos mais ousados. Os mais genuinamente maçons entre os maçons. (grifo meu)

Denilson Forato M.I. - Pesquisador
Bibliografia
GOTTSCHALL, Carlos Antonio Mascia. Do Mito ao Pensamento Científico, A busca da realidade, de Tales a Einstein. 2ª Edição. Porto Alegre: Atheneu, 2004
BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia.Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997
DIVERSOS.Enciclopédia Simpósio de Filosofia .http://www.cfh.ufsc.br/~simpozio
RUSSEL,Bertrand.História do Pensamento Ocidental.Rio de Janeiro: Ediouro,2001

A Moral, Paixão e Razão -- David Hume

Essa peça tem como base a filosofia empírica de David Hume, filósofo escocês, nascido em Edimburgo em 1711, onde faleceu em 1776, e foi influenciado por Descartes e Locke, dois outros filósofos iluministas, representantes do empirismo,  e seus precursores.
A Paixão e a Razão são temas de debate da Maçonaria, pelo menos daqueles que se preocupam com o estudo da filosofia, com a interpretação dos símbolos e sua real aplicação na sociedade pelo exemplo de suas ações, que é o objetivo do construtor social. Debate-se ou estuda-se, melhor dizendo, o uso da razão, que deve se sobrepor à paixão, expressa no telhamento, quando respondemos ao que viemos ali fazer: “Vencer minhas paixões, submeter minhas vontades e fazer novos progressos na Maçonaria”. Essa resposta é dada em todos os telhamentos dos ritos de origem francesa, pelo menos, que já foram, sem dúvidas, desde sua origem, influenciados pelo Iluminismo, empírico ou racionalista, na busca da Verdade a que nos propusemos. Essa verdade é justamente o significado do simbolismo, ou a revelação das virtudes inerentes a cada alegoria.
O Empirismo, escola da qual Hume foi prócer, afirmava que o conhecimento viria da experiência vivida e do que se aprende do mundo externo, usando os sentidos e pela introspecção, avaliação do mundo subjetivo, descartando as afirmativas reveladas pelo misticismo ou baseados em suposições a priori (a princípio), mesmo quando aparentemente lógicas.
No seu livro, Tratado da Natureza Humana, talvez sua maior obra, dividida em três tomos, Livro do Entendimento, Livro das Paixões e Livro da Moral, ensina que as paixões ou sentimentos, advêm das ideias e das impressões.  Essas impressões dividem-se em impressões originais vindas dos sentidos, e as secundárias, consequencias das originais.
As impressões originais são internas, primitivas, sentimentos inatos ao físico humano, que geram dores ou prazeres e sempre se renovam. As paixões são secundárias, posto que se derivam da percepção, do que se vê, do que se sabe, da incerteza, e Hume as classificam como diretas (o pesar ou sofrimento, medo, desejo, alegria, aversão), que são as primeiras reações,  ou indiretas (amor, ódio, orgulho, humildade) resultantes das diretas, ou seja, as consequencias daquelas.
Para Hume, a Moral não nasce da Razão, mas da Paixão, porque as decisões morais afetam as ações humanas, ao passo que a razão não as afeta. Afirma que as ações de um individuo são afetadas somente quando o objeto dessa ação é de seu interesse, ou seja, é moral aquilo que me agrada, com o que simpatizo ou imoral aquilo que me prejudica, me causa dor. Se não for de seu interesse, não é moral, ou pouco importa se é ou não.  E só se interessa por aquilo que lhe cause dor ou prazer.
Explica-se. A moral é o que me agrada, e me agrada o que me dá prazer. Ele acreditava ainda que a Razão deveria servir para organizar ou encaminhar as paixões, ou seja, ser sua “escrava”.
Fácil exemplificar, é imoral falar mal de uma pessoa, ainda mais desconhecida ou de fora de seu circulo de amigos ou familiares. Mas, se eu falo mal de um político e vc simpatizar com a ideia, você considera uma atitude moralmente aceita, ainda que eu esteja caluniando, injuriando ou difamando esse político. Todavia, se ele for da sua simpatia, vai me considerar imoral pela difamação, injúria ou calúnia.
Como a moral, portanto, tem uma influência sobre as ações e os afetos, segue-se que não pode ser derivada da razão, porque a razão sozinha, como já provamos, nunca poderia ter tal influência. A moral desperta paixões, e produz ou impede ações. A razão por si só, é inteiramente impotente quanto a esse aspecto. As regras da moral, portanto, não são conclusões de nossa razão. (Hume, 2001, p.497) Tratado da natureza humana: uma tentativa de introduzir o método, in http://www.consciencia.org/david-hume-e-o-entendimento-humano-em-relacao-a-moral
A experiência vivida pelo individuo é que fará a diferença de avaliação moral. Há paixão no julgamento de um e na avaliação do outro, não há Razão.
Se usar a Razão não vai injuriar, caluniar ou difamar, mas analisar os pontos prós e os pontos contra, e deixar a dúvida sobre a sentença para que a Justiça ou cada individuo julgue a questão.  Por isso, a moral é determinada pela paixão e causa os conflitos, porque cada um tem uma bagagem, uma experiência vivida para formar suas ideias e sentimentos.
Na Maçonaria, encontramos pontos em comum com o Empirismo de Hume, quando se fala em Moral, Paixão e Razão. O rito Moderno prega o uso da Razão, também entendido como senso comum aqui, como meio de pacificação entre os indivíduos e de lógica para se atingir o conhecimento ou a Verdade. Usa-se, nele, o método científico da experimentação, da percepção pesquisa do conhecimento já obtido, abrindo-se mão dos conhecimentos ou Verdades absolutas, advindos do misticismo ou de deduções principiológicas. O entendimento das virtudes a serem postas em prática pela sociedade, através do exemplo do maçom, são obtidas pelo estudo racional do que é conhecido e do que se pesquisa e não do “conhecimento místico” ou partido de um princípio esotérico ou mesmo lógico, que não seja comprovado.
Mas estariam os homens, ainda que iniciados, prontos para o uso da Razão? Não! Nem de longe. Somos pura paixão e, ainda que tenhamos como princípio virmos à Maçonaria aprender a dominar as paixões, mostra-se que elas ainda nos dominam. Estamos presos a tradições, usos e costumes dos tempos pré-iluministas, da era do obscurantismo, temos medo da punição divina e nos escondemos atrás de livros religiosos para compensar nosso atrevimento em sermos iniciados em uma ordem “profana” aos olhos daqueles que pregam a Verdade Absoluta a partir do desconhecido.
Seguindo o mestre Hume ainda, as paixões são motivadas pela dor ou pelo prazer que sentimos, e um desses prazeres (ou dor) é a Vaidade. Ela principia a paixão, assim como o ódio, o amor, o apego à materialidade (cargos, títulos, graus em alta numeração). Estamos ligados por demais a esses prazeres e dores.
Conclui-se, então, que o domínio das paixões está no conhecimento das virtudes, que são sentimentos que geram prazer em igual ou maior intensidade do que os prazeres advindos dos vícios, que deveriam causar somente dores. Ao ensinarmos a uma criança esses valores, das virtudes, estamos educando-a a vencer os vícios.
A paixão é inevitável, posto que tem origem em nossos sentidos, portanto, o papel do individuo é vencer a paixão na medida do possível, do conhecimento sobre as virtudes, e praticá-la, experimentá-la, vivenciá-la e assim nos acostumarmos a ela.
Essa é a aplicação da Razão como serva da paixão, conduzi-la para que seja lastreada nas virtudes.
E desta forma, construímos uma nova moral, papel que cabe à Maçonaria estar à frente, ou seja, dos maçons, que aprenderam a dominar suas paixões com a razão e evidenciarem as virtudes como padrão de comportamento.
Se não for esse o papel da Maçonaria, então, temos que retornar ao início da caminhada e novamente pedir a Luz.
Adaptação: Ir. Denilson Forato M.I.