quarta-feira, 2 de setembro de 2020

A Concepção do Grande Arquiteto do Universo no Rito Francês ou Moderno

 Conferência realizada no Salão Nobre do Grande Oriente do Brasil pelo Pod:. Ir:. Dr. Álvaro Palmeira, Gr:. Orad:. Da Sob:. Assemb:. Federal, em 6 de fevereiro de 1961 E:. V:.

Presidiu a sessão o Pod:. Ir:. Prefessor Altamiro Meireles Grilo, Gr:. Secr:. Geral do Grande Oriente.

Prezados Irmãos,
Agradeço vivamente ao estimado e culto Ir:. Dr. Tito Ascoli de Oliva Maia a solicitação, com que me distinguiu, para que participasse dêste ciclo de conferências sôbre o Rito Moderno ou Francês.
Os afazeres do mundo profano impediram-me de assistir às reuniões anteriores, em que os eminentes Irmãos Alfredo Nogueira da Costa e Oscar Pereira dos Santos versaram assuntos do maior interêsse. Lamentei não ter estado presente, tantas foram as referências elogiosas, de que tive notícias, sôbre o trabalho, que produziram, e do que me comprazi.
Hoje estou aqui, para atender ao vosso convite fraterno, apreciando o tema: “A concepção do Grande Arquiteto do Universo no Rito Moderno”. Diz-me o Ir:. Oliva Maia que fui eu quem escolheu o assunto. Não sei bem se assim foi. Todavia, êle é da mais alta importância e significado e merece o devido estudo por alguém capaz de fazê-lo, que não eu. O que ides ouvir é apenas uma pequena investigação de modesto estudioso de matéria maçônica.
1. Como se constituíram o Grande Oriente de França e o Rito Francês ou Moderno.
A Maçonaria introduziu-se na França, de modo permanente, em 1721. Nesse ano, constituíram-se as Lojas “Amizade e Fraternidade”, ao Or:. De Dunquerque e a “Perfeita União”, ao Or:. De Mons.
Em Paris, as primeiras reuniões maçônicas surgiram em 1725. Criaram-se até 1732 quatro Lojas: a do Lord Carlos Radcliff, a do lapidário Gustand, a “São Tomaz” de André-François Lebreion e a Loja d’Aumont, do duque dêsse nome. Na época (e ainda muitos anos depois) quem criava Loja era seu Venerável perpétuo.
Em 1738 os membros dessas quatro Lojas parisienses reuniram-se em conjunto e elegeram um Grão-Mestre, o duque d’Antin, aclamando no castelo d’Aubigny, em 24 de junho, como “Grão-Mestre Geral e Perpétuo dos Maçons no Reino da França”. Em 1743 êsses maçons das quatro Lojas deliberaram constituir um órgão geral, que denominaram Grande Loja Inglesa da França, sob a direção do conde de Clermont, que sucedera a d’Antin; era como uma Grande Loja Provincial, se bem que Londres não lhe outorgasse Carta Constitutiva.
Essa Grande Loja publicou as “Ordenações Gerais”, que eram uma adaptação do “Livro das Constituições”, de Anderson, que a Grande Loja de Londres, em 1723, solenemente aprovara; e, como esta, também só admitiu a Maçonaria de três graus.
Em 1758 a Grande Loja Inglesa de França suprimiu a expressão “Inglesa” e tornou-se a Grande Loja de França (1). Na época, cada Loja praticava o Rito, que entendia. Em 1761 criou-se o Rito Francês, de três graus, num esfôrço para dar unidade maçônica à França.
O conde de Clermont morreu em 1771, sucedendo-lhe Sua Alteza Sereníssima Luiz-Felipe de Orléans, duque de Chartres, conhecido na História como Felipe-Egalité, o qual nomeou como “administrador geral” o duque de Luxemburgo, que foi um maçom extraordinário.
O duque de Luxemburgo fez reunir, em Paris, no hotel de Chaulnes, entre 5 de março e 26 de junho de 1772, os maçons franceses, em 15 assembléias solenes, de que resultou a unidade e a soberania da Maçonaria francesa, com a criação de uma autoridade central: o Grande Oriente de França, sendo entronizado Grão-Mestre o duque de Chartres.
Foi o duque de Luxemburgo quem estabeleceu a “palavra semestral”, para reconhecimento da regularidade.
A nova potência, ao libertar-se da hegemonia inglesa, constitui oficialmente em 24 de dezembro de 1772 o Rito Francês e o proclamou em 9 de março de 1773, com a instalação de suas três câmaras. Convém esclarecer que a adoção do Rito Francês não impedia o exercício de outros Ritos no seio do Grande Oriente de França, como ainda hoje se procede, através do Grande Colégio dos Ritos da aludida Potência.
Felipe de Orleans, em nome da ortodoxia maçônica, entendeu de coibir a proliferação dos Altos Graus. Querendo discipliná-los, nomeou em 1774 uma Comissão, para que estudasse todos os sistemas conhecidos, inclusive o Francês, e compusesse um novo Rito, que fôsse uma síntese do que houvesse de melhor. Na época, praticavam-se 11 Ritos na França, com variado número de graus, quase todos baseados no capricho ou na vaidade e até na política, do que se originavam grandes abusos.
A comissão compunha-se dos Irmãos: Bacon de la Chevalerie, o conde de Stroganoff, o barão de Troussaint, e outros. Depois de longos estudos, a Comissão concluiu pela oposição a todos os Altos Graus. O Grande Oriente aceitou a drástica conclusão e dirigiu, em 3 de agôsto de 1777, uma Circular a tôdas as Lojas subordinadas, declarando só admitir os três graus do simbolismo.
Os partidários dos Altos Graus levantaram grande protesto e abriram tenaz campanha, compelindo o Grande Oriente a reabrir o assunto em 1782, com a criação de uma Comissão Especial, sob o título de Câmara de Ritos. Essa Comissão trabalhou mais de cinco anos e apresentou em 1786 ao Grande Oriente um projeto de reforma, composto de 7 Graus, sendo três simbólicos e quatro Altos Graus (“Quatro Ordens do Grande Oriente de França”) (2), projeto que foi aprovado por unanimidade e imediatamente pôsto em prática, mantido o mesmo título de Rito Francês, porque fôra apenas ampliado. A inovação, entretanto, fê-lo conhecido também pelo nome de Rito Moderno.
Observa-se a data: 1786, isto é, o mesmo ano em que Frederico da Prússia estabelecia o Rito Escocês Antigo e Aceito de 33 graus.
A Inglaterra nada objetou a Frederico II da Prússia. Entretanto, porque era maçônicamente inamistosa com a França (e também o era politicamente), declarou-se contra os quatro Altos Graus criados pelo Grande Oriente e proscreveu a Maçonaria
francesa no que foi acompanhada pela Holanda, Dinamarca e Rússia. O motivo era desconcertante: os partidários da Maçonaria de três graus consideravam afrontosa a criação de mais quatro e os detentores de Altos Graus traduziram essa criação como uma profanação e um acinte, por se apresentar condensada a Maçonaria Filosófica em apenas quatro graus. Entre êsses dois fogos, os maçons franceses, que adotavam o novo sistema, foram impedidos do direito de visitação.
O Grande Oriente de França enfrentou, porém, com êxito, a oposição levantada. Com o tempo, o Rito espalhou-se por tôda a França e suas possessões e implantou-se na Bélgica, Suissa, Portugal, Brasil e Espanha.
2. Os antigos Rituais do Rito Francês ou Moderno de 7 Graus, conforme a reforma litúrgica de 1786.
O Rito Francês ou Moderno de 7 Graus existe desde 1786; tem a mesma idade do Grande Colégio do Ritos do Grande Oriente de França, cuja origem remonta à mesma data. Houve, porém, em 1877 a reforma da Constituição do Grande Oriente, a qual impôs a reformulação dos Rituais o que foi feito em 1886.
O Rito Francês ou Moderno de 7 Graus tem, assim, duas fases e elas são totalmente diversas: a primeira, de 1786 até 1877 (quase um século); e a segunda, de 1877 até o presente.
Os Rituais da primeira fase são totalmente deístas. Os Estatutos de 1742 declaram: “Ninguém será recebido na Ordem sem que tenha prometido e jurado afeição inviolável à Religião, ao Rei e aos costumes”. As vésperas da Revolução muitas Lojas têm por veneráveis: abades, cônegos, oratórianos, beneditinos, cisteretenses. Havia Lojas compostas exclusivamente de membros do clero, como a “Perfeita União” de Rennes e a “Amizade Comprovada”, de Narbonne. A Constituição do Grande Oriente de França, de 1849, em seu artigo1.º § 2.º proclamava como princípio fundamental da Maçonaria a crença em Deus e a imortalidade da alma.
Analisemos, ràpidamente, êsses Rituais da primeira fase. Tenho comigo a 5.ª edição do “Manual da Maçonaria”, de André Cassard, vindo à luz nessa época (1867), em Nova York. No tomo 2.º se lêem as passagens, bem expressivas, que vamos transcrever.
No catecismo do 1.º grau:
Pergunta – Que significa a luz ?
Resposta – O emblema de tôdas as virtudes e o símbolo do Gr:. Arq:. Do Universo.
P. – Como fostes introduzido em Loja ?
R. – Por três grandes golpes.
P. – Que significam êsses golpes ?
R. – Correspondem às três palavras do Evangelho: pedi e obtereis; buscai e encontrareis; tocai e se vos abrirão.
P. – Como estáveis, quando fizestes o juramento ?
R. – Em um quadrado perfeito: tinha o pé esquerdo descalço, o joelho direito desnudo, a mão direita sôbre a Bíblia, etc.
P. – Lembrai-vos da obrigação ?
R. – Sim, Venerável Mestre.
P. – Começai, pois.
R. – Eu, F., de minha livre e espontânea vontade, prometo e juro solenemente, ante o Grande Arquiteto do Universo, etc.
Na página 14 o catecismo diz que a “sabedoria está em Deus”.
No catecismo do 2.º grau assegura-se que “a fôrça está em Deus”, a Loja é dedicada a São João de Jerusalém e a Estrêla Flamígera é o centro de onde derivou a Verdadeira Luz.
No catecismo do 3.º grau, vê-se a tumba de Hiram, o ramo de acácia e repete-se que a Loja é consagrada a São João. O compromisso é prestado de joelhos, as mãos sôbre a Bíblia e em presença do Gr:. Arquiteto do Universo; termina com a expressão: “Assim Deus me ajude”. É contada tôda a lenda de Hiram e ensinam-se os Cinco Pontos Perfeitos da Maçonaria. Aconselha-se: “O coração do Maçon deve ser puro, para formar com êle um Templo, agradável a Deus”. Faz-se nesse grau a descrição do Templo de Salomão. O Evangelho constitui uma das três joias da Loja e significa a Verdade.
No grau 4: a Loja chama-se Conselho e se persevera na descoberta dos assassinos de Hiram.
No grau 5: a Loja é a Abóboda Secreta. Ela contém o Delta precioso, achado após a morte de Hiram.
No grau 6: a Loja tem três peças e busca-se a reedificação do Templo do Gr:. Arq:. Do Univ:.
Todos êsses graus são profundamente religiosos e servem de preparação no sétimo.
No grau 7:
P. – Que horas São?
R. – “A hora em que foi desgarrado o véu do Templo, as trevas se estenderam por tôda a Terra; foram espedaçadas as colunas e as ferramentas da Maçonaria; em que se ocultou a Estrêla Resplendente, a pedra cúbica porejou sangue e água e a Palavra se perdeu”.
Os Cavaleiros vão procurar a Palavra Perdida, que é o mesmo tetragrama do escocismo. Ao encerrar-se o Capítulo, a pedra cúbica se transformou em Rosa Mística. Notem-se ainda: o sinal de Ordem é o Bom Pastor e a cerimônia da Ceia repete o Rito Escocês.
Tudo isso se lê no trabalho de Cassard, editado em 1867. É curioso, porém, que dois autores modernos, os IIr:. Frau Abrines e Arus Arderiu, no tomo III do seu “Diccionário Enciclopédico de la Masoneria”, edição de 1947, pág. 593, afirmem que o 1.º grau do Rito Francês ou Moderno “conduza o neófito `a admiração e ao reconhecimento do Gr:. Arq:. Do Univ:.”, conforme ensina Ragon, no Ritual de Aprendiz. A Loja abre-se sob os auspícios do Gr:. Arq:. do Univ:., de quem se invoca a bênção para os trabalhos, com uma prece. No Testamento há, entre outras, esta pergunta: “Que deve o homem a Deus?” e o discurso do Orador constitui um hino de graças.
Frau Abrines e Arus Arderiu parecem desconhecer a reforma de 1877. Tudo quanto dizem nos nossos dias é o Rito Francês ou Moderno em sua primeira fase.
No grau 2, por exemplo, o companheiro viu a Estrêla Flamígera e soube que há cinco beneméritos da humanidade: Solon, Sócrates, Licurgo, Pitágoras e INRI.
No grau 3 admitem-se questões filosóficas e teológicas, e as ciências ocultas, que tratam da transformação dos corpos e da imortalidade da alma, conforme Ragon, no Ritual
do 3.º grau. Ainda no 3.º grau, ao responder à conhecida pergunta, diz o Mestre: “a acácia me é conhecida” (pág. 604). A Estrêla Flamígera encerra-se dentre de um triângulo, com a letra G no centro. Conta-se a história de Hiram e os Mestres perseguem “a Verdade Eterna” (pág. 606).
Os graus 4, 5 e 6 mantém a mesma orientação, já assinalada em Cassard, bem como o grau 7. Há, nesse último, as colunas: Fé, Esperança e Caridade e a Palavra Perdida é o tetragrama do escocismo.
Os IIr:. Abrines e Arderiu não levaram em conta a reforma de 1877. Repita-se, porém, que seu Dicionário Enciclopédico é de nossa época e traz até a inovação recentíssima do grau 8: Kadosch Perfeito Iniciado, conforme se lê a pág. 808 do tomo III.
3. Os novos Rituais, isto é, os Rituais da segunda fase, após a reforma da Constituição do Grande Oriente de França, em 1877. Os debates da reforma.
O Grande Colégio dos Ritos não era, nem é, soberano. Em 1877, a Assembléia Geral do Grande Oriente de França decidiu suprimir o preceito até então proclamado como o princípio fundamental da Maçonaria: a crença em Deus e a imortalidade da alma. Essa supressão, vitoriosa, obrigou o Grande Colégio dos Ritos a reformular os Rituais, o que só ocorreu em 1886, porque foram muitas as resistências a vencer. A supressão daquele princípio fundamental produziu o abandono da fórmula: “A Glória do Grande Arquiteto do Universo”, bem como à retirada da Bíblia do Altar dos Juramentos.
A Constituição do Grande Oriente de França, após a reforma de 1877, estabelece em seu art. 1.º, depois de definir os objetivos e princípios da Instituição: “A Franco-Maçonaria, considerando que as concepções metafísicas são do domínio exclusivo da apreciação individual de seus membros, recusa-se a qualquer afirmação dogmática”.
Em homenagem ao Grande Oriente de França, convém deixar bem claro os motivos por que êle operou essa reforma. Sua atitude não traduziu, como poderia parecer, reação ao Sillabus, o código de intolerância do Papa Pio IX, decretado em dezembro de 1864. (3).
O Grande Oriente não passou da posição deista para a posição atéia.
Absolutamente. Não se impunha ateísmo a ninguém. O voto n.º 9, em virtude do qual a Assembléia suprimiu aquela afirmação dogmática de crença em Deus e na
imortalidade da alma, tem a sua genuína interpretação nos Boletins do Grande Oriente de França, dos anos de 1876 e 1877 (4).
No Boletim de 1876, a pág. 373, se lê:
“Só a má fé pode assimilar a supressão, que se pretende, a uma negação da existência de Deus e da imortalidade da alma. Pleiteamos, sim como bases exclusivas da Franco-Maçonaria a solidariedade humana e a liberdade de consciência, mas essas bases comportam a crença em Deus e em uma alma imortal, tanto quanto autorizam o materialismo, o positivismo ou qualquer outra doutrina filosófica”. (5).
No mesmo Boletim de 1876, a pág. 378, se diz: “A Franco-Maçonaria não é deista, nem atéia, nem mesmo positivista. Como instituição, afirmando e praticando a solidariedade humana, ela é estranha a todo dógma e a todo e qualquer credo religioso. Ela tem por princípio único o respeito absoluto à liberdade de consciência.
Em matéria de fé, ela não afirma nem nega. Ela respeita, de modo igual, tôdas as convicções, doutrinas e crenças sinceras. Assim, as portas de nossos Templos se abrem diante do protestante, como diante do católico, diante do muçulmano como diante do cristão, diante do ateu como diante do deista, desde que sejam homens de bem”.
A página 380 do mesmo Boletim de 1876 se acentua:
“Nenhum homem inteligente e honesto poderá dizer seriamente que o Grande Oriente de França quis banir de suas Lojas a crença em Deus e na imortalidade da alma, quando, ao contrário, em nome da liberdade absoluta de consciência, êle declara solenemente respeitar as convicções, as doutrinas e as crenças de seus membros. Nós não afirmamos nem negamos nenhum dógma, para nos mantermos fiéis aos nossos princípios e à prática da solidariedade humana. Se convém aos Grandes Orientes estrangeiros nos caluniar, deturpando nossos pensamentos e desnaturando nossos sentimentos, que o façam: são livres”.
Em 1877, quando a Assembléia ainda debatia o assunto, proclamava-se (Boletim, pág. 243):
“Deixemos aos teólogos o cuidado de discutir os dogmas. Deixemos às igrejas totalitárias o cuidado de formular os Syllabus. Mas que a Maçonaria se torne o que deve ser: uma instituição aberta ao progresso, a tôdas as idéias morais e elevadas, a tôdas as aspirações largas e liberais. Que ela não desça jamais à arena ardente das discussões
teológicas, que não têm trazido senão dissenções e perseguições. Que ela se guarde de querer ser uma Igreja, um Concílio, um Sinôdo! Porque tôdas as Igrejas, Concílios e Sinôdos têm sido violentos e perseguidores, porque o dógma é, por sua natureza, inquisidor e intolerante. Que a Maçonaria paire, pois, majestosamente, acima de tôdas as questões de igrejas ou de seitas; que ela sobreleve, do alto, tôdas essas discussões; que ela se torne o vasto abrigo, sempre aberto a todos os espíritos generosos e bravos, a todos os perquiridores conscienciosos e desinteressados da verdade, a tôdas as vítimas, enfim, do despotismo e da intolerância”.
A Moção, que adotou o voto n.º 9, supressivo, consta, finalmente, a fls. 248 do Boletim de 1877: “A Assembléia, considerando que a Franco-Maçonaria não é uma religião, não pode, por conseqüência, afirmar em sua Constituição doutrinas ou dogmas”. (6).
O texto aprovado estabelecia: “A Franco-Maçonaria, instituição inteiramente filantrópica e progressista, tem por objetivo a procura da verdade, o estudo da moral universal, das ciências e das artes e o exercício da beneficência. Tem por princípios a liberdade absoluta de consciência e a solidariedade humana. Não exclui ninguém por suas crenças. Tem por divisa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, (“Les Francs-Maçons”, de Serge Hutin, ed. 1960, pág. 109, coleção “LeTemps qui court”). É curioso assinalar-se que a aprovação se deu, após um discurso muito aplaudido do Ir:. Desmons, que não era livre pensador, mas um pastor protestante.
Prestemos, assim, estimados Irmãos, homenagem aos maçons francêses de 1877, que não operaram a supressão, movidos por espírito de combate às concepções espiritualistas ou cristãs. Absolutamente.
Ainda no Boletim de 1877, pág. 382, o Conselho da Ordem, em sua sessão de 24 de novembro, mais uma vez esclarecida:
“Modificando um artigo de seus Estatutos, o Grande Oriente de França não pretendeu fazer profissão de ateísmo ou materialismo, como se poderia crer. Nada mudou, nem nos princípios nem nas práticas da Maçonaria. A Franco-Maçonaria francesa permanece o que sempre foi: uma Maçonaria fraterna e tolerante. Respeitando a fé religiosa e as convicções políticas de seus adéptos, ela deixa a cada um, nessas delicadas questões, a liberdade de consciência. Visando ao aperfeiçoamento moral e intelectual dos homens e seu bem estar, ela só exige àqueles que querem se admitidos em seu seio,
sentimentos de honra e de amor ao bem, para que possa cooperar ùltilmente na obra do progresso e da civilização”.
O Grande Oriente de França suprimiu a afirmação dogmática, pelo respeito à liberdade de consciência de seus membros. Uma grande prova de tolerância, deu-a o mesmo Conselho da Ordem, quando, doze anos mais tarde, em 1899, em sua sessão de 28 de outubro, afirmou com superioridade (Boletim, pág. 455):
“É preciso, para transpor os umbrais dos Templos maçônicos da América do Norte, fazer uma profissão de fé deista. Nós não somos neles recebidos. Tem-se pedido que o Grande Oriente use de reciprocidade, em relação aos maçons americanos, mas não entra em nosso caráter e em nossos princípios partilhar as idéias de intolerância de nossos irmãos da América; eis porque nós os acolhemos, quando êles nos procuram”.
Conclúo aqui as citações dos Boletins oficiais do Grande Oriente de França. Parece-me plenamente fixado o motivo, que ditou reforma constitucional de 1877, o que iria determinar a revisão dos Rituais, até então vigentes.
É evidente desnecessário a maçons do Rito Francês ou Moderno dizer quais são as principais características de seus Rituais atuais, isto é, os Rituais da segunda fase, derivados da reforma da Constituição do Grande Oriente de França, em 1877. Todavia, em atenção ao desenvolvimento didático dêste trabalho, acentuarei:
No grau 1. O juramento é sôbre a Constituição; o candidato não ajoelha. Define-se a Maçonaria como uma instituição, cujos princípios são: a Tolerância, o Respeito Mútuo e a Liberdade de Consciência. Sua divisa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Não há Bíblia, nem outro L:. S:., nem preces, nem se invoca o Grande Arquiteto do Universo.
No grau 2. Faz-se a glorificação do trabalho, mas a letra G é gravitação, gênio, geometria, e a Estrêla Flamejante simboliza a estrêla polar ou o astro do livre pensamento.
No grau 3. A acácia não é a imortalidade. Ela significa que a vida tira seus elementos da morte e lembra a renovação social pela liberdade, que sucede à opressão.
No grau 7. Não há referência e Jesus. A Palavra Perdida é a trilogia da Revolução Francesa.
Nos Rituais especiais, o mesmo sentido agnóstico:
na inauguração do Templo, invoca-se a Verdade, a Razão e a Justiça;
na confirmação do casamento, considera-se a cerimônia como um contrato, visando a perpetuação da espécie;
na pompa fúnebre: não há afirmação da imortalidade do espírito, nem a invocação do Grande Arquiteto do Universo. E se diz que “o corpo, que morreu, vai contribuir ao desenvolvimento da vida vegetal”.
Nos Rituais vigente do Rito Francês ou Moderno não há liturgia, porque não há cerimônia religiosa. Os Ritos podem compreender cerimônias religiosas e não religiosas. Segundo Jules Boucher, em seu conhecido livro “La Symbolique Maçonnique”, Rito é, em Maçonaria, “a codificação de certas cerimônias. É o cerimonial”.
Nos seus Rituais vigentes, O Rito Francês ou Moderno é um Rito, sem as práticas religiosas de um culto. Seus Rituais contém as regras ou preceitos, com os quais se realizam as cerimônias e se comunicam os SS:., TT:. e PP:. e demais instruções secretas dos graus.
4. Tinha a reforma de 1877 direito ao acatamento dos maçons do Rito, fóra da França?
Responde-se pela negativa. Demais, é preciso distinguir entre Ritos e Corpos Superiores Administrativos, que exercem o poder da Instituição em cada país. O Rito é independente do Poder.
A reforma de 1877 foi feita pela Assembléia Geral do Grande Oriente, não pelo Corpo Litúrgico. Êsse, em virtude da reforma constitucional, foi compelido a reformular os Rituais.
Evidentemente, a reforma só obrigava aos maçons franceses do Rito. Não aos maçons do Rito fora da França. Isso porque nenhuma Potência Administrativa ou Simbólica é dona de um Rito. Só a Potência Filosófica pode alterar os Rituais.
Entretanto, em verdade, pelo antigo prestígio político da Nação Francêsa, todos os Grandes Orientes, em que se praticava o Rito, inclusive o Grande Oriente do Brasil, acompanharam sem discrepância o Grande Oriente de França.
Há ainda uma aspecto a considerar. No Rito Escocês Antigo e Aceito realizam-se Congressos quinquenais dos Soberanos Supremos Conselhos, para disciplinar o Rito.
No Rito Francês ou Moderno jamais se reuniram os Corpos Litúrgicos Superiores dos vários países, para debater quaisquer assuntos de interêsse geral; de modo que cada Corpo Litúrgico é soberano para os maçons de sua alçada.
O nosso Muito Pod:. e Subl:. Grande Capítulo do Rito Moderno poderia repor, se o quisesse, os Rituais, conforme à sua fonte primitiva. Não só em virtude de sua soberania imanente, em matéria litúrgica, no Brasil, como também porque o nosso Grande Capítulo é anterior à reforma de 1877; êle foi fundado em 1842 sob o nome de Grande Capítulo Geral dos Ritos Azuis, tomando o nome de Grande Capítulo do Rito Francês ou Moderno em 23 de novembro de 1874.
5. É improcedente, por falsa, a arguição de irregularidade ao Rito Moderno ou Francês.
Não tem base nenhuma a imputação de irregularidade ao Rito Francês ou Moderno.
A Grande Loja Unida da Inglaterra rompeu com o Grande Oriente de França, após a reforma de 1877 (sempre a oposição inglêsa!), considerando o Grande Oriente Potência atéia, por possuir um Rito Oficial, que não exige a crença no Gr:. Arq:. do Universo. Igual procedimento tiveram as Grandes Lojas dos Estados Unidos da América do Norte. A atitude inglêsa tem raízes no velho imperialismo maçônico e frutificou, por que ingleses e americanos, na maioria protestantes, sentem-se bem em Maçonaria com o dógma e a Bíblia.
Entretanto, essa exigência do dógma é, maçônicamente, impertinente e falsa, por não se assentar nos postulados do “Livro das Constituições”, de Anderson, aprovado e promulgado pela Grande Loja de Londres, em 1723.
Como sabemos, o “Livro das Constituições” sanciona oficialmente o novo aspecto especulativo e universal, assumido pela antiga Maçonaria. Por êles se dá à Maçonaria reorganizada em 1717 seus Estatutos fundamentais. O trabalho de Anderson passou a constituir a base do Direito Internacional Maçônico. Os landmarques derivam dêsse trabalho.
A primeira edição foi aprovada, promulgada e impressa em 1723. É a edição princips. “Em 1738, porém, Anderson publicou uma segunda edição de seu Livro, dando um extrato dos atos da Grande Loja até aquela data, especialmente as decisões
referentes a acréscimos e emendas às velhas regras; com o escôpo de aclarar, condensar e corrigir, alterou a fraseologia dos Antient Charges; e, posto que sua obra fôsse aprovada pelos Grandes Oficiais, diz-se que a Grande Loja recusou sancionar essa nova redação, permanecendo a da primeira edição como versão verdadeira” (vide “Astréa”, ano II, n.º 1, pág. 15).
A versão primitiva de 1723 é ainda hoje a reconhecida ortodoxa pela própria Grande Loja Unida da Inglaterra e por tôda a Maçonaria anglo-saxonia. É o suporte doutrinário dessas Potências e é a Carta reconhecida por todos os maçons regulares em todos os países.
Lá está, no art. 1.º dos “Deveres dos Maçons – Concernente a Deus e à Religião”:
“Um maçon é obrigado a obedecer à Lei Moral; e se êle bem entender da Arte, nunca será um ateu estúpido nem um irreligioso libertino. Posto que nos tempos antigos, os MM:. tivessem a obrigação de seguir a religião do próprio país ou Nação, qualquer que ela fôsse, presentemente julgou-se mais conveniente obrigá-lo a praticar a religião, em que todos os homens estão de acôrdo, deixando-lhes plena liberdade às convicções particulares. Essa religião consiste em serem bons, sinceros, honrados, de modo que possam ser diferenciados dos outros. Por êsse motivo, a Maçonaria é considerada como centro de união e faculta os meios de se estabelecer leal amizade entre pessoas que, sem ela, não se conheceriam” (“Astréa”, acima citada, pág. 16: “Pequena Enciclopedia Maçônica”, de Otaviano Bastos, 1ª. Ed., 1929, págs. 197-198; “Les Francs-Maçons”, de Serge Hutin, ed. 1961, págs. 64-65).
Note-se: a Lei Moral Maçônica impede que o ateu se torne estúpido e libertino o irreligioso.
Como se vê, Anderson impôs condições morais, não condições espirituais. Êle fazia, realmente, da liberdade de consciência o fundamento da Ordem Maçônica.
A segunda edição, porém, do “Livro das Constituições”, quinze anos mais tarde (1738), inovou: pretendeu estabelecer a necessidade de crer na existência de um Deus Pessoal. Eis o famoso texto modificado:
“Se bem que nos tempos antigos os maçons fossem obrigados a submeter-se aos usos cristãos de cada país, êles são hoje obrigados a conforma-se à Lei Moral, como um
verdadeiro noaquita”. Em outras palavras: o noaquita ou noaquida é o descendente do Noé ou, genèricamente, todo aquele que observa escrupulosamente os preceitos determinados por Deus a êsse patriarca, após o dilúvio.
Essa 2ª. Edição do “Livro das Constituições” pretendia destarte impor uma formação religiosa ao maçom. Anderson e seu grande colaborador Desaguliers eram presbiterianos. Por isso, o retôrno à religiosidade pôde buscar inspiração no Velho Testamento, quando o mais espontâneo seria inspirar-se nas Antigas Obrigações (Old Charges) da Maçonaria inglêsa e nos Regulamentos dos Maçons operativos do continente (trabalhadores de pedra da Alemanha e de Veneza, por exemplo), que eram essencialmente católicos. Êsse aspecto de parcialidade religiosa, sem dúvida, influiu no abandono da 2ª. Edição do “Livro das Constituições”. Eram duas correntes religiosas, que se defrontavam: basta lembrar que Miguel Ramsay, da Escócia, católico, discípulo de Fenelon, pretendeu em 1728 lançar os fundamentos de uma nova Maçonaria e evitou qualquer contacto com Anderson e Desaguliers, por serem êsses protestantes.
Nada existe, pois, no texto vigente do “Livro da Constituições” de Anderson, que justifique a imputação de irregulidariedade, que se assacou ao Rito Francês ou Moderno, após a reforma de 1877.
E mais: os Ritos deístas estabeleceram, com o correr dos tempos um conjunto de requisitos ferais e especiais (êsses para graus simbólicos), necessários à regularidade maçônica. O Rito Francês ou Moderno satisfaz a tôdas essas exigências, absolutamente tôdas, salvo a adoção do símbolo do Grande Arq:. Do Univ:. e o uso consequente do L:. S:. sôbre o Altar dos Juramentos, como veremos; o Rito emprega Sinais, Toques e Palavras para cada grau; desenvolve as cerimônias por meio de fórmulas misteriosas e emblemáticas dentro dos Templos, com símbolos da construção universal; usa no 1.º grau o Gabinete de Reflexões para o neófito, desenvolve na iniciação o cultivo da Moral, da Fraternidade e da Tolerância e explica as viagens simbólicas; no 2.º grau glorifica, na cerimônia iniciática, o trabalho, e o emprêgo das respectivas ferramentas e o aprimoramento das ciências e das artes ; no 3.º grau adota a Lenda de Hiram e a sua analogia com o princípio científico de que a vida nasce da morte.
Tudo isso se contém nos três graus simbólicos do Rito Francês ou Moderno. Só não há nele a afirmação dogmática. Evidentemente, assim é, porque o Rito é agnóstico, o que aliás não contraria o cânone, já citado, do Livro das Constituições de Anderson,
solenemente aprovado como codificação da Lei Maçônica, em 17 de janeiro de 1723, pelos maçons inglêses, e ainda hoje obedecido em todo o mundo maçônico regular.
Demais, os Ritos deístas, que no caso importam, são o Rito Escocês Antigo e Aceito e o Rito de York, cujas raízes estão, respectivamente, no cristianismo e no mosaismo. É clara impertinência êsses Ritos estabeleceram regras de regularidade para qualquer outro sistema, erguido sôbre outros fundamentos. (7).
Há ainda uma terceira ordem de considerações. O Rito Francês ou Moderno, como é hoje praticado, continua observando todos os landmarques da Ordem, isto é, a súmula dos Preceitos Tradicionais ou a Regra Tradicional da Maçonaria, inspirada no Livro das Constituições.
No decorrer do tempo, várias têm sido as compilações dos landmarques. A mais conhecida é de Alberto Machey, autor da famosa “Enciclopedia da Franco-Maçonaria”. Machey era de Charleston, Estados Unidos. Professou o Rito de York e foi amigo dileto do Ir:. Pike, autor de outro livro famoso: “Moral e Dógma do Rito Escocês Antigo e Aceito”.
Os landmarques, compilados por Machey, incluem preceitos relativos ao Grão-Mestrado e, naturalmente por ser êle deista, os relativos ao Gr:. Arq:. do Univ:., à imortalidade da alma e ao L:. da L:. Se excluirmos aquela matéria não pertinente ao Rito e esta, que é dogmática e não exigida por Anderson, todos os demais landmarques tradicionais continuam observados pelo Rito Francês ou Moderno. Senão, vejamos: os processos de reconhecimento, a divisão da Maçonaria em três graus, a lenda de Hiram, a congregação dos maçons em Loja, o govêrno da Loja por um Venerável e dois Vigilantes, a Loja estará a coberto quando reunida, os direitos de representação e de recurso assegurados aos irmãos, o direito de visitação, a trolha ao visitante desconhecido, a proibição de uma Loja se imiscuir em assuntos de outra ou conferir grau a irmão de outra Loja, a submissão do maçom à lei maçônica de seu Oriente, sómente homem o candidato à iniciação, sendo isento de defeitos físicos, livre e maior; a igualdade dos maçons em Loja, não influindo a situação profana; o conservação secreta dos SS:., TT:. e PP:. e o uso dos símbolos como fontes de ensinamento moral.
Tudo isso está nos landmarques da Ordem. Tudo isso está também no Rito Francês ou Moderno. Onde a sua irregularidade?
6. Conviria ao Rito Francês ou Moderno voltar, no brasil, aos Rituais primitivos, isto é, aos Rituais deístas?
O Muito Pod:. e Subl:. Gr:. Cap:. do Rito Moderno poderia, se o quisesse, repudiar os atuais Rituais e adotar os anteriores à reforma de 1877, revisando-os ou não. A Oficina-Chefe de Rito, no Brasil, tem poderes para tanto. É mandatária exclusiva do Rito no Brasil.
Penso, porém, que não deve fazê-lo. É preciso que a Maçonaria mantenha a porta aberta para todos os homens livres e de bons costumes, sejam crentes ou não.
Em minha opinião pessoal, O Rito Moderno deve continuar com o seu caráter agnóstico.
Há tempos, em uma conferência no Oriente de Juiz de Fora, no Templo da Gr:. Ben:. Caridade e Firmeza, proferi estas palavras, que definem meu pensamento:
“Existem pessoas, notoriamente nobres e dignas, que entretanto não atingem o Gr:. Arq:. do Universo.
Não falo só dos que permanecem aprisionados e entediados no ceticismo; refiro-me também aos que investigam e procuram a solução de seus anseios filosóficos e religiosos e não o decifram; aludo ainda aos que procuram Deus com os cinco sentidos na Natureza, e não no íntimo do coração, e por isso não O acham; reporto-me por igual aos que não podem aceitar a imanência, em vez da contingência, àqueles cujo espírito rejeita a intuição e quer lógica. Esses constituem a imensa massa dos inconformados com a contradição da Vida e não podem conciliar as dores e as injustiças do mundo com a onipotência e a bondade de Deus. Surpreende-os a presença do Mal na Terra: um mistério, muitas vêzes triunfante, e o Bem espezinhado.
Êsses homens positivos, realistas e pragmáticos não encontram a resposta transcendente, porque teológicamente a humanidade se acha em estado peregrinal, êles, porém, precisam receber também fraterna acolhida na Maçonaria, por serem, consigo próprios, honestos e coerentes. Há, sem dúvida, merecimento no incréu que faz o bem pelo bem, sem esperar a recompensa de Deus, que êle não alcança, e sem temor do inferno, que êle desconhece. Concordo com aqueles que afirmam que o homem bom, crente ou não, sempre encontrará, no fim da jornada, a Deus, que o espera.
Só o Rito Moderno pode receber a todos os homens bons, crentes ou não. Êsse Rito é o único sistema de caráter agnóstico existente na Maçonaria Universal. Êle observa uma atitude rigorosamente abstencionista, em face de tôda crença, como de tôda crença. Êle não inclui, em sua doutrina, as exigências dogmáticas do Gr:. Arq:. do Univ:. e da imortalidade da alma. Perante essas categorias máximas da metafísica humana, o Rito, como instituição, passa de largo, sem conhecê-las, deixando-as à apreciação da consciência individual de cada um. Essa atitude abstencionista, que não é atéia, permite que trabalhem, sem constrangimento, nas Lojas do Rito Moderno, maçons deístas, ao lado de maçons agnósticos e de não crentes”.
Com estas palavras, pronunciadas no Oriente de Juiz de Fora, procurava exaltar a afirmação de Tolerância do Rito Moderno, que se situa na vanguarda da Maçonaria, porque proclama a sua universalidade, acima de tôda opinião, crença ou filosofia. (8).
Lamartine, que não era Maçom, mas admirava a Ordem, escreveu em 27 de setembro de 1858 aos irmãos da Loja Maçon estas palavras: “Na minha opinião, sois os grandes ecléticos do mundo moderno; escolheis em todos os sistemas, em tôdas as filosofias, os princípios evidentes, eternos e imutáveis da moral universal e com êles erigis a regra infalível e unânime da fraternidade. Repelis tudo quanto divide os espíritos, professais tudo o que une os corações, sois os construtores da concórdia. Vossos instrumentos de trabalho põem o cimento da virtude nos fundamentos da sociedade”. (Serge Hutin, op. Cit., pág. 27).
O grande escritor dirigia-se aos maçons de França. Nenhum elogio maior poderia receber o Rito Francês ou Moderno.
7. Conclusões
1.ª O Rito Francês ou Moderno foi criado em 1761, constituído em 24 de dezembro de 1772 e proclamado pelo Grande Oriente de França em 9 de março de 1773. Ampliado para 7 graus, pela reforma litúrgica em 1786.
2.ª A concepção do Grande Arquiteto do Universo existiu, durante um século, nos Rituais do Rito Francês ou Moderno, como princípio fundamental.
3.ª Em 1877, a Assembléia Geral do Grande Oriente de França, órgão soberano, suprimiu essa afirmação dogmática, em nome da liberdade de consciência, mas não em nome de nenhuma doutrina ou filosofia. O Grande Colégio dos Ritos do Grande Oriente
de França foi compelido, em conseqüência, a reformular os Rituais e a suprimir à Bíblia do A:. dos Jur:. Êsses Rituais, como Hoje os lemos, são agnósticos.
4.ª A reforma constitucional de 1877 evidentemente só alcançava a jurisdição do Grande Oriente de França, mas os demais Grandes Orientes, inclusive o Grande Oriente do Brasil, onde se praticava o Rito, acompanharam aquela Potência.
5.ª Não tem base ou fundamento a imputação de irregularidade ao Rito Francês ou Moderno, em virtude da reforma operada. Entre outras razões, porque atende a todos os landmarques, exceto os dogmas, não exigíveis no “Livro da Constituições” de Anderson.
6.ª É lícito a qualquer Corpo Filosófico do Rito Francês ou Moderno, em qualquer país, repôs os Rituais em sua fonte deista primitiva. O nosso M:. Pod:. e Subl:. Gr:. Cap:. do Rito Moderno poderia fazê-lo, tanto mais quanto é anterior à reforma constitucional de 1877.
7.ª Em minha opinião pessoal, a reforma de 1877 foi útil e necessária, porque permite o ingresso, na Maçonaria, de elementos prestantes, porém agnósticos ou não crentes.
* *
Quero, agora, prezados Irmãos, finalizar esta palestra, louvando esta Aug:. Loja José do Patrocínio pela sua iniciativa de realizar os trabalhos preparatórios do 1.º Simpósio Brasileiro da Maçonaria Simbólica.
Esta Aug:. Oficina está erguendo no Poder Central o facho do aprimoramento maçônico. Nossa Ordem necessita, urgentemente, de uma renascença espiritual, larga e profunda.
Estamos no limiar de uma nova era. Não prevalecerá totalmente o Oeste, nem tampouco o Leste. A História nos mostra que no embate da Tese e da Antítese, resulta necessariamente a Síntese.
E nós, maçons, que em tôda a parte fomos os Construtores do Futuro, não podemos ficar na penosa situação de expectadores inanes e inúteis, quando a missão do maçom é reger, dirigir e comandar.
Honra, pois, a esta Loja, que se empenha em despertar e esclarecer a consciência do Povo Maçônico do Brasil.
Notas explicativas
(1) Não se trata da atual Grande Loja de França, escocesa, da Rua Puteaux.
(2) François Favre, “Documents maçonniques”, Paris, 1866, pág. 5.
(3) Até a data da reforma de 1877, a Maçonaria foi objeto de dez condenações papais. Os atos pontifícios contra a Maçonaria são os seguintes:
Constituição “In Eminenti” de 24 de abril de 1738, de Clemente XII;
Constituição “Providas”, de 18 de maio de 1751, de Bento XIV;
Constituição “Ecclesian in Jesu Christo”, de 13 de setembro de 1821, de Pio VII;
Constituição “Quo Graviora”, de 13 de março de 1825, de Leão XII;
Encíclica “Traditi”, de 21 de maio de 1829, de Pio VIII;
Encíclica “Mirari vos”, de 15 de agôsto de 1832, de Gregório XV;
Encíclica “Qui Pluribus”, de 9 de agôsto de 1846, de Pio IX;
Encíclica “Quanta cura”, de 8 de dezembro de 1864, de Pio IX;
Alocução “Multiplices inter”, de 26 de setembro de 1865, de Pio IX;
Bula “Apostolicoe Sede”, de 12 de outubro de 1869, de Pio IX.
(4) Tôdas as citações dos Boletins do Grande Oriente de França constam das páginas 179 e seguintes do “Commentaire de la Constitution et du Règlement Général”, anexo ao volume da “Constitution et Règlement Général de la Federation”, ed. 1899, 11.ª tiragem, editado em Paris pelo Secretariat Général du Grand Orient de France.
(5) A expressão Franco-Maçonaria não quer dizer Maçonaria francesa e sim Maçonaria livre.
(6) O movimento de opinião para a supressão da fórmula: “À Glória do Grande Arquiteto do Universo”, considerada atentatória à liberdade de pensamento, durou mais de um decênio. Em 5 de junho de 1865, a Assembléia Geral adotou
um texto de conciliação, doze anos antes da adoção do texto supressivo: “A Franco-Maçonaria tem por princípio a existência de Deus, a imortalidade da alma e a solidariedade humana. Ela admite a liberdade de consciência como um direito próprio a cada homem e não exclui ninguém por suas crenças”.
(7) Aliás, a Declaração de Princípios do Congresso de Lausanne dos Supremos Conselhos do Escocismo, em 1875 (dois anos antes da supressão do dógma no Grande Oriente de França), proclamou “a existência de um Princípio Criador, sob o nome de Grande Arquiteto do Universo”. Note-se: afirma-se a “existência” de um princípio criador, mas não se exige “crença” em um “Deus Criador”.
(8) Mesmo no período anterior a 1877, o Grande Oriente de França não era discriminativo, não impedia a admissão de agnósticos ou ateus. Entre outras provas, temos a iniciação de Voltaire, em 1778.

domingo, 7 de junho de 2020

A Questão do Tempo na Maçonaria

A Questão do Tempo
A maioria das pessoas, lógico supor, admite uma compreensão intuitiva do tempo. Pra essa maioria o tempo é algo ao mesmo tempo cotidiano, empírico, científico, fácil e complexo, poético e assustador, sentimental ou frívolo.
Falamos do ontem, do hoje e do amanhã. Referenciamos no passado de nossas vidas, para hoje planejarmos e pensamos no futuro de nossas famílias. Enfim, existe um tempo que passa ao mesmo tempo em que outros passam o tempo.
Para muitos o passado como tempo é história e o futuro especulação. O hoje e o agora não existem, sendo apenas uma referência de segundos entre o passado e o futuro.
Deus é, diriam alguns, logo não existe passado ou futuro na mente de deus. Talvez por isso Santo Agostinho tenha escrito em suas Confissões: “O que é o tempo? Se ninguém pergunta, sei o que ele é; mas se alguém me pergunta e tento explica-lo, já não sei mais.” (SANTO AGOSTINHO, 1997).
Poderíamos, partindo da premissa acima, considerar que o tempo é algo ou objeto de difícil definição, podendo apresentar diversos conceitos e abordado de formas diferentes, dependendo do ramo da ciência, seja arte, geometria, biologia, astronomia, matemática, física, sociologia e filosofia.
Não se pretende neste artigo uma abordagem sobre cada um desses aspectos, mas apenas demonstrar que o simbolismo da régua de 24 polegadas, em especial no Rito de York, possui profunda atualidade filosófica sobre o que concerne ao tempo.
A Régua de 24 polegadas na Maçonaria
A primeira observação que fazemos é quanto às características básicas da régua, um instrumento simples, milenar, que nos ensina, de uma forma mais simples ainda, o caminho direto entre dois pontos, dois destinos. Com a régua medimos um seguimento do infinito. Uma parte de nossa vida. A retidão que buscamos.
Após a cerimônia de iniciação maçônica, no primeiro grau da Ordem, o Aprendiz Maçom recebe uma régua, ou é instado a pensar sobre a utilidade de “uma régua de 24 polegadas”que, devidamente dividida em três partes iguais, deve remetê-lo a adequar a utilização do tempo cotidiano. A Maçonaria a adota porque simboliza o dia com suas vinte e quatro horas, exigindo dos maçons uma adequada utilização das horas do dia.
No campo maçônico a graduação nela colocada de vinte e quatro polegadas, serve para mensurar o tempo, as vinte e quatro horas do dia, em que o homem deve distribuir suas atividades. No Rito de York, a “cautela” ganha importância na vida do maçom. Associar, portanto, a cautela à régua de 24 polegadas nos parece ser um bom caminho para explorarmos o conceito de tempo.
Um maçom deve usar, no cotidiano de sua existência, as 24 polegadas como representação de 24 horas, divididas em três partes de 8 horas: descanso, trabalho e sociabilidade.
Assim, deve de certa forma dividi-las entre suas atividades matinais, nem sempre realizadas, como sua primeira refeição diária, às vezes esquecida. Outras horas dedicadas ao seu trabalho; à necessária recreação, muitas das vezes não considerada; suas reflexões, em geral pouco ou mal aproveitadas; e o merecido repouso, como nos prega a mensagem maçônica. E as outras oitos horas servindo a deus ou a algum necessitado.
Filosoficamente, poderíamos dizer tratar-se de um caminho entre a norma e a ordem, entre o que se quer fazer e o que se deve fazer, entre o passional e o racional, entre a direção da ponta do malho ao topo do cinzel. Indica a própria construção do homem, a lapidação de sua forma mais bruta em busca da perfeição (RAGON, 2005).
O exercício na separação de cada tempo, dando o ritmo necessário para cada etapa, faz com que o homem evolua, cresça, se realize e desenvolva habilidades que de outra forma poderia pensar ser impossível realizá-las.
A constante assertiva de muitos maçons contemporâneos de que “não tem tempo”, quer para ir à Loja ou realizar atividades de filantropia, demonstra uma não utilização dos princípios maçônicos sobre a administração do tempo (ALCÂNTARA FILHO, 2012).
Segundo os conceitos filosóficos do simbolismo maçônico, “tempo obtido” seria uma vitória pessoal, inigualável, uma capacidade de autogestão, ou a pura demonstração da vontade, de responsabilidade e do reconhecimento de si própria. Um caminho que se propõe reto é íntegro e honesto. Cada nova ação proposta deverá ser bem estudada, analisada, e, para ser edificada, basta incluí-la nos intervalos de cada ponto de nossa régua, utilizando para isso os princípios éticos que envolvem a liberdade, a igualdade e a fraternidade (BAYARD, 2004).
No campo simbólico, junto ao malho e o cinzel, a régua forma um conjunto de ferramentas ou instrumentos que devem ser usados pelo Aprendiz em seu trabalho, como Rito Escocês Antigo e Aceito. Já no Rito de York, mais antigo que esse, a régua de 24 polegadas está associada ao “martelo de corte”, um instrumento muito mais apropriado ao trabalho no “desbastar” da Pedra Bruta.
De qualquer forma, a régua era usada pelos maçons operativos, àqueles que remontam das lendas míticas aos construtores de templos, para executar um trabalho de precisão na construção, medindo, delineando, ajustando o traçado ou limites do corte de uma determinada pedra para uma construção específica.
O Tempo: Primeiros Conceitos
Aristóteles (1995), em sua obra “Physique IV, Tratado do Tempo”, faz uma reflexão sobre a realidade física do tempo, aquela que é medida pelos relógios, dando inclusive a impressão que descarta o tempo psicológico, demonstrando que o tempo é uma ilusão. Para ele, o momento presente, como “instante”, não pode existir para o homem, pois não pode ser percebido instantaneamente, como no sonho (BURNET, 1994).
Ele formula uma questão-chave: “O tempo poderia existir sem a alma e o pensamento, que são os verdadeiros sujeitos de toda a medição? (218b)”. Depois de uma análise desta questão, ele mesmo formula a resposta afirmando que isso poderia ser válido para todas as coisas, menos para o tempo e o movimento. As respostas acima seriam analisadas séculos depois por Santo Agostinho. Mas, retornando a Aristóteles, podemos ressaltar a definição de seu objeto: “O tempo, se não é o próprio movimento, é seu número calculado, isto é o resultado da medição” (219)Assim ganhamos consciência do tempo pelo fato do movimento representar uma sucessão contínua, definida como um antes e um depois, ou seja, “O tempo é o número do movimento conforme o antes e o depois” (219b).
Lógico que já evidenciamos esses conceitos aristotélicos no simbolismo da régua de 24 polegadas, no sentido de podermos medir numericamente um espaço de movimento menor (ciclo de oito horas) durante um dia (três ciclos de oito horas).
Analogamente, no item 223-b da mesma obra, Aristóteles diz que “a locomoção circular (o movimento dos astros no céu) é a melhor medida, porque seu número é o mais conhecido”, o que também remete a simbolismo maçônico, do Rito Escocês.
Heidegger (2012), ao citar Platão, afirmou que o tempo nasceu quando um ser divino colocou ordem e estruturou o caos primitivo. O tempo tem, portanto, de acordo com Platão, uma origem cosmológica. Ele procura estabelecer a distinção entre o “ser” e o “não ser”. O mundo do “ser” é fundamental e não está sujeito a mutações. Ele é, portanto, eternamente o mesmo. Este mundo, entretanto, é o mundo das ideias, apreensível apenas pela inteligência e pode ser entendido utilizando-se a razão. O mundo do “não ser’’ faz parte das sensações, que são irracionais, porque “dependem essencialmente de cada pessoa” (LUCE, 1994).
O domínio do tempo estaria nesse segundo mundo, assim como tudo o que se observa no universo físico, tendo assim uma importância menor. Talvez possa ser dito que para Platão o tempo essencialmente não existe, uma vez que faz parte do mundo das sensações.
O Tempo da Alma
Platão, em Timeu, afirma que o “deus quis que todas as coisas fossem boas”. Portanto, para ele, esse deus:
[…] teve a ideia de criar uma espécie de imagem móvel da eternidade, e, enquanto organizava o céu, criou à semelhança da eternidade imutável em sua unidade, uma imagem em eterna evolução, ritmada pelo número; e é isto que chamamos de tempo. À constituição do tempo, ele combinou o nascimento dos dias, das noites, dos meses e do ano (Platão. Timeu e Critias ou Atlântida, 2002).
Esses princípios mostram a universalidade do ensino simbólico da Maçonaria, em especial na régua de 24 polegadas, pois o ciclo se repete, a cada 8 medições numéricas, num ciclo ininterrupto de 3 medições. Ou seja, a cada hora, a cada dia, mês e ano. Enfim, a régua e os conceitos platônicos nos remetem a nossa própria vida e eternidade.
Santo Agostinho (op. cit) oferece-nos outra reflexão sobre o tempo onde ele opõe a eternidade imóvel num eterno presente e o tempo que passa. Para ele o “Verbo” eterno é o criador de todos os tempos em que a criação pode ocorrer. E no capítulo XIII afirma que não havia tempo antes que o tempo existisse, mostrando que o futuro não existe ainda, o passado já não existe mais e presente vai desaparecer a medida que o tempo avança, sendo portanto efêmero.
Outra contribuição de Agostinho é que do tempo “psicológico” de Aristóteles constrói a ideia de tríade:
[…] passado-presente-futuro que não existem em atos, mas nas representações de nossas mentes, e se existem nas representações de nossas mentes, eles o fazem na forma presente, pois é no presente que concebemos ou imaginamos o futuro e nos recordamos do passado (cap. XVII)”. (ABRÃO & COSCODAI, 1999).
A humanidade tem necessidade de medir o que ela concebe como tempo. A régua de 24 polegadas expressa essa necessidade. Portanto, deve ser dividida em 3 partes iguais, pois aqui o tempo se apresenta como número e, como todos os números, indicando quantidade – quer de tempo ou de horas – não passa de um produto prático de pensamento.
Considerações Finais
A natureza do tempo tem sido um dos maiores problemas desde a antiguidade, quer no que concerne a medição, passagem, fluidez, linearidade ou circularidade, se divino, cósmico ou meramente físico.
Acredita-se cada vez mais que ele é uma das propriedades gerais do pensamento humano ou uma se suas exterioridades e que, para a compreensão e entendimento de nossa humanidade, precisa ser dividido em três dimensões lineares: o passado, o presente e futuro.
Sabemos que devemos a máxima de “nunca nos banhamos duas vezes no mesmo rio” a Heráclito (1988), que é o filósofo da transformação e do movimento perpétuo. Conceito que reforça o princípio de que a divisão igual em 24 partes da régua, embora repetida cotidianamente pelos maçons, nunca terá o mesmo objetivo, pois se renova automaticamente, ao final de cada ciclo de 24 horas.
Mesmo sendo uma contraposição ao pensamento de Platão (op. Cit), que, ao defender um “ciclo mítico de eterno retorno”, onde o tempo era um movimento cíclico e assíduo, pois aquilo que acontecia no passado era repetido e retornava (VERNANT, 1992), a régua de 24 polegadas reafirma um conceito de que a repetição insensata de pensamentos e ações, diariamente, traz infortúnios.
Na perspectiva de Kant, o tempo é uma estrutura da relação do sujeito com ele próprio e com o mundo, uma forma “a priori” da sensibilidade, uma espécie de intuição pura e ao mesmo tempo, uma noção objetiva de observação e não extraído da experiência, ou seja, um dos limites para o conhecimento no plano da sensibilidade.
Independentemente do valor material, físico e matemático da medição do tempo, relacionando-o ao passado, presente ou futuro, a medida que o tempo se torna subjetivo ou psicológico, cada ser humano pode vivenciá-lo numa situação agradável, desagradável, lenta, rápida, penosa ou alegre. Conclui-se portanto que o homem, pela sua condição de mortal, é afetado por processos diferentes do que ocorrem no espaço infinito.
Há uma assertiva na Maçonaria brasileira de que “somos todos aprendizes”. Sendo assim, a régua de 24 polegadas, pelo menos teoricamente, nos acompanha sempre. Se seu simbolismo é usado junto com a nossa capacidade mental de reter acontecimentos e imagens passamos a ter uma condição fundamental para as características fundamentais da vida social, o que inclui obrigatoriamente a necessidade de “tempo” para nós mesmos e para nossas famílias.
Referências
ABRÃO, B.S.; COSCODAI, M.U. História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
ALCÂNTARA FILHO, N. Irmãos, Ajudai-me a Abrir Loja. São Paulo: Madras, 2012.
ARISTÓTELES. Physique IV, Traité du temps. Paris: Kimé, 1995.
BAYARD, J. P. A Espiritualidade da Maçonaria: da Ordem Iniciática Tradicional às Obediências. São Paulo: Madras, 2004.
BURNET, J. O Despertar da Filosofia Grega. Trad. M. Gama. São Paulo: Siciliano, 1994.
HERÁCLITO. Fragments et Témoignages, Les Présocratiques. Paris: Gallimard, 1988.
HEIDEGGER, M. Platão, o Sofista. São Paulo: Editora Forense Universitária, 2012.
LUCE, J.V. Curso de Filosofia Grega. Trad. M.G. Kury. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
PLATÃO. Timeu e Critias ou Atlântida. Rio de janeiro: Hemus Editora, 2002.
RAGON, J. M. Ritual do Aprendiz Maçom. 8ª Ed. São Paulo: Pensamento, 2005.
SANTO AGOSTINHO. Confissões. Rio de Janeiro: Editora Paulus, 1997.
VERNANT, J. P. As origens do Pensamento Grego. Trad.
I.B.B. da Fonseca. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 7ª ed., 1992

sábado, 6 de junho de 2020

Existe ainda relevância na Maçonaria?

A questão de se a Maçonaria ainda é relevante em nossa sociedade em constante mutação é frequentemente colocada em fóruns maçônicos e por profanos. Isso indica que é de importância a muitos, a maioria Irmãos. Além disso, a questão é frequentemente colocada quando se discute as condições nas quais nossas Lojas estão atualmente; talvez até mesmo um desespero ante o que parece ser o futuro da Maçonaria. Na minha opinião, esse é um aspecto um tanto limitado de “relevância,” isto é, a habilidade de contribuir positivamente à solução dos problemas ou entraves defrontados pela Maçonaria e pelos Irmãos, como tais, em suas vidas diárias.
O dicionário Webster define “relevante” como:
“Etimologia: Latim medieval relevant-, do latim, particípio presente de revelare alçar. 1. Ter suporte significativo e demonstrável no assunto em questão 2. Suprir evidências tencionando provar ou desprovar qualquer assunto em debate ou sob discussão <testemunho relevante3. Ter relevância social 4. A qualidade ou estado de ser relevante; pertinência; aplicabilidade.”
Para os propósitos deste trabalho, eu enfatizaria as últimas duas definições. Apesar de tudo, queremos nos certificar de que o que fazemos vale nossos esforços!
Tentarei lidar com essa questão principalmente de seus aspectos morais. No entanto, seria quase impossível apresentar um tratado completo em artigo. Uma discussão completa necessita provas de toda alegação ou opinião, o que está além do escopo de minhas presentes reflexões. O que permanece é um esforço para apontar brevemente diversos ângulos possíveis de “relevância” e deixar para os leitores desenvolverem essas questões.
Quando discutindo a “relevância” em nossas vidas de sermos maçons, devemos distinguir entre quatro aspectos principais:
a.         a Maçonaria é relevante para minha vida diária?
b.         outras pessoas consideram o fato de eu ser maçom como afetando minhas atitudes e ações, o que prova sua relevância a mim?
c.         tem a Maçonaria, como uma organização, qualquer relevância às sociedades atuais, da forma que ela existe?
d.        a sociedade considera nosso corpo maçônico como relevante para resolver os problemas presentes ou futuros da sociedade humana?
No texto a seguir tentarei lidar apenas com o primeiro aspecto acima. Parece-me que aquilo que as outras pessoas pensam acerca de nós como maçons ou de nossa organização não causa dúvidas sobre nossa relevância entre irmãos. Somos nós quem temos de nos convencer de que pertencer à Maçonaria é de valor para nós como indivíduos.
A maioria de nós nos defrontamos com expressões de dúvidas ou mesmo de ridículo quanto à Maçonaria. Às vezes, podemos também duvidar da relevância de nosso Ofício Antigo à nossa célere e mudadiça sociedade. Quando usamos a frase “um peculiar sistema de moralidade,” levamos estimamos os ensinamentos morais de nosso sistema como relevantes para nossas vidas e para os julgamentos morais que temos de fazer, ou é tudo passeé? A fim de responder essas questões, devemos voltar aos nossos ancestrais, que se encontravam para espiritualizar ou moralizar, como costumavam chamar seu filosofar. Parece que nós temos de nos fazer quatro perguntas:
a.         a necessidade de socializar do homem com os outros mudou?
b.         a necessidade de sentimentos fraternais próximos deu completamente lugar à necessidade apenas de conquistas pessoais?
c.         a necessidade de se discutir ou ponderar sobre questões morais deixou de existir?
d.        todas essas mudanças necessitam de uma alteração de nossos princípios morais?
Vamos tentar examinar essas quatro questões.
a.         A necessidade do homem de socializar
Quanto à primeira pergunta, espero que você concorde comigo em que a necessidade do homem de socializar certamente não desapareceu. Os motivos podem ter mudado, talvez os propósitos para socializar com os outros servem para outros fins também, mas a necessidade real do indivíduo ainda existe. O homem continuou um animal social e, a despeito dos meios de comunicação modernos, ainda precisamos de contato humano direto.
Ao mesmo tempo, devemos entender que as implicações da ênfase de sermos uma fraternidade, de reter relações fraternais. Sem uma longa discussão de significados sociológicos, pode-se seguramente dizer que tal relacionamento é baseado em um laço emocional. Jaz na esfera das interrelações familiares e apenas pode existir quando há envolvimento pessoal. Quando encontramos um estranho pela primeira vez, todos sabemos o que sentimos assim que descobrimos que esse estranho é um Irmão. Pense em quanto logo nos abrimos um para com o outro, trocando experiências. Em minha visão, isso é uma prova da importância que vinculamos ao pertencer à nossa fraternidade antiga e ao seu sistema de princípios morais.
b.        Competitividade versus fraternidade
Sem dúvida, nas democracias modernas ocidentais vivemos em uma sociedade competitiva, uma sociedade orientada à conquista. Espero que concorde comigo em que esses aspectos de nossa vida moderna não anulam, de modo algum, nossa necessidade de socializar. A sociedade moderna fez-nos mais competitivos e com uma necessidade clara de provar a nós mesmo aquilo que fazemos. No entanto, devemos nos perguntar se conquistas pessoais se tornaram, em todos os casos, mais importantes do que o contato (emocional) pessoal. Tornou-se predominante em nossas atividades diárias, sobrepassando todo o resto? Em minha visão, a resposta é: NÃO. Ainda temos a necessidade de nosso lugar.
Ao mesmo tempo, devemos entender que quando usamos o termo “Irmão” queremos dizer uma ligação emocional, típica de grupos pequenos como nossa célula familiar. Sem investigar exaustivamente as teorias sociológicas acerca de grupos pequenos[1], espero estar sendo claro a todos, por suas experiências pessoais, que, em tais grupos sociais pequenos, forças aumentando a coesão são entendidas como legítimas e devem ser reforçadas, enquanto que a competição dentro de tal grupo pequeno é considerada ilegítima e é fortemente censurada. Não só é considerada ilegítima, mas também origina antagonismos emocionais muito fortes. Segue que, tão logo haja duras competições entre irmãos dentro de uma Loja, elas originarão reações emocionais muito fortes. Pode-se reduzir uma Loja a migalhas. Uma caracterítica típica de grupos pequenos é que eles são monolíticos e não permitem diversidade. Em oposição a isso, nossa sociedade moderna é baseada na diversidade. Por que motivo pregamos tolêrancia e moderação? Certamente esperamos que os irmãos deixem seus antagonismos do lado de fora das portas da Loja, para que se conserve a harmonia.
Do que eu acabei de dizer devemos perceber que aí existe uma tensão inerente entre nossa competitividade e nosso comportamento orientado à conquista fora da Loja e o envolvimento fraterno entre nós como Irmãos na Loja e como maçons. No mais, ela pode indicar porquê competições dentro de nossas Lojas frequentemente originam tensões fortes e porquê é oposta ao que consideramos relações fraternas.
c.         A necessidade de se discutir assuntos gerais
Apesar de nos comprometermos não discutir política e religião (fé) nas Lojas, parece-me que a troca de visões acerca de questões morais é ainda uma necessidade do homem moderno. Pode até ser uma das atrações da Maçonaria. Moralizar, como nossos ancestrais o fizeram.
O que parece a mim ser de extrema importância é que entramos em uma Loja, e na Maçonaria, para satisfazer outras necessidades. Um neófito Iniciado geralmente sente que ele tem oportunidades suficientes para competir fora da Maçonaria e da Loja. Parece que quando tudo é dito e feito, depois de cuidarmos de nossas necessidades materiais, depois de garantirmos todas as nossas necessidade pessoais e familiares, ainda precisamos satisfazer nossas necessidades sociais e espirituais. É isso que temos como objetivo atingir nos tornando irmãos desse laço místico. Tornando-nos Maçons.
Em minha visão, um dos fatores influenciando a força ou a fraqueza da Maçonaria hoje é nossa percepção de que devemos satisfazer essa necessidade ou fazer perder o interesse de muitos Irmãos jovens. Aqueles que vêm buscando relações intelectuais – pelo menos como fator adicional – desapontar-se-ão e logo saem. Esse é o motivo pelo qual considero satifazer as necessidades intelectuais como uma parte importante de nossas Lojas.
d.        Devemos mudar nossos princípios de moralidade?
Vamos nos voltar à questão de princípios morais e se eles, também, mudam rapidamente no ritmo em que sociedade moderna muda. Começemos concordando que não apenas a sociedade humana muda ao longo do tempo, mas que o grau de mudança aumentou imensamente, criando novas condições e novos problemas. A situação a qual chamamos de “A Vila Global,” com seus meios modernos de comunicação, sem dúvida mudou muitos aspectos de nossa vida. Entretanto, espero que concorde comigo em que os princípios básicos de moralidade permaneceram inalterados, mesmo que suas utilizações possam ter mudado ao longo do tempo.
Consideremos dois exemplos. A questão da igualdade é o primeiro princípio que vem à minha mente. No século XVIII, “todos os homens nascem iguais” significava apenas a nobreza. Então se incluiu a burguesia e finalmente todos os homens foram incluídos, apesar de mulheres não serem consideradas “iguais”: foram as últimas a ser incluídas.
É mais provável que nós fomos os originadores do direito à auto-determinação, que se tornou lentamente aplicável aos direitos nacionais no século XIX e seguinte, e o direito das nações influenciaram a questão das minorias e de seus direitos. Como podemos ver, o princípio começou aplicável apenas a uma parte da sociedade e lentamente se ampliou para englobar todos os seres humanos.
Esses são apenas dois exemplos. O princípio da igualdade fora discutido em Lojas maçônicas e adotado por reformistas sociais. Começou com a igualdade de direitos (políticos e judiciais), mas é agora aplicado como igualdade de oportunidades a todos, sem considerar raça, religião e sexo. A idéia do estado de bem-estar social é uma descendente direta dos princípios morais adotados primeiramente por maçons. Agora, como maçons que se “encontram no nível,” acreditamos que ele se aplica apenas a nossos irmãos, ou aceitamos a aplicabilidade mais abrangente do princípio da igualdade? Como maçons, temos algo a dizer sobre a desigualdade na sociedade fora de nossa Loja? Temos o que dizer sobre abusos dos direitos da minoria? Isso não é relevante para nós como cidadãos?
Espero que concordem comigo em que o que acabamos de dizer significa que a necessidade de se discutir questões morais com os outros permaneceu inalterada. Eu dou um passo mais além e digo que há uma necessidade de se avaliar constantemente os princípios de si mesmo e os ajustar quando necessário para novas situações. Em outras palavras: quando falamos do princípio do governo da maioria, também predominante na Maçonaria, estamos na verdade discutindo princípios morais maçônicos que tipificam qualquer sistema democrático de vida. É a necessidade constante de um cidadão democrático conferir os limites de sua liberdade contra aqueles do seu próximo; os direitos dele contra aqueles de outros; os limites que devem ser colocados sob o governo da maioria. Então, também aqui, devemos concluir que os princípios de nosso “peculiar sistema de moralidade” ainda são válidos como o eram há décadas. Nosso sistema é “peculiar” no modo pelo qual é ensinado através de símbolos e alegorias. Essa é a única peculiaridade de nosso sistema.
Então, a Maçonaria ainda é relevante?
O que tudo o escrito acima tem com a Maçonaria? Tudo! A Maçonaria é um sistema de moralidade que nos ajuda a nos reformar de acordo com princípios morais ideais. Fazer o que Sócrates chamou de “viver a boa vida,” significando: a única vida que vale ser vivida, uma vida de acordo com os princípios morais de si mesmo. Temos todos sucesso? Certamente não! Sendo seres humanos normais – pelo menos espero que sejamos -, temos nossas fraquezas humanas. Nem sempre conseguimos o que esperamos, mas ao menos nos empreendemos a tentar chegar o mais próximo a esse objetivo. Não é melhor assim, mesmo se somente um pouco?
É interessante que a Maçonaria floresce em sociedades na quais homens têm crenças arraigadas e um senso de compromisso. Uma atmosfera na qual alguém tem como seu dever lutar pelas causas nas quais ele acredita. A Maçonaria não pode florescer em uma sociedade na qual haja uma atmosfera de apatia devido à visão de que nada pode ser feito para alterar injustiças, nem da qual o homem se sinta alienado.
Deve-se talvez perceber que novos movimentos de extremistas políticos e religiosos, de fundamentalismo, têm crescido por todo o globo e estão tentando obter supremacia. O que nós, como maçons, temos a dizer sobre isso, baseado em nossos princípios morais?
Preciso dizer mais? Parece-me que em toda sociedade moderna a Maçonaria pode contribuir para uma melhor atmosfera social e uma maior sensibilidade às necessidades de todos os membros dessa sociedade. Especialmente os fracos e os necessitados. Como maçons, devemos nos orgulhar disso.
Como organização, nós nos abstemos de nos envolver em assuntos políticos e religiosos, mas maçons – como pessoas físicas – são parte de uma fraternidade internacional de homens que expressaram seu compromisso com certos princípios morais e com sempre os conservar, de homens que poderiam influenciar a sociedade dando bons exemplos. Não pregamos nem damos publicidade a nossas contribuições. Por outro lado, empreendemo-nos em nos certificar e re-certificar constantemente, e tentar ser dignos do título “homo sapience.” Estamos prontos para ser – ao menos em parte do tempo – mais atenciosos com os outros e mais críticos de nós mesmos, e não dos outros? Nossa própria vida se tornará mais rica como resultado de sermos maçons em ações e em pensamentos?
Bem, deixo para que cada um de vocês reflita sobre isso.