segunda-feira, 23 de maio de 2022

"Questão de ordem" e "pela ordem": você sabe quando se deve usá-las?

 


1. "Questão de ordem"

O mecanismo da “questão de ordem” serve para suscitar questões de direito, principalmente quando se depara com alguma ilegalidade (RGF,CONSTITUIÇÂO,ATOS,DECRETOS e LEIS).

A palavra deve ser requerida ao Venerável Mestres, que, em razão do Irmão arguir “questão de ordem”, deve lhe conceder a palavra para que a fundamente, ou seja, indique qual o dispositivo legal está sendo violado e em razão de quais motivos.

O Irmão deve sempre requerer que a “questão de ordem” por ele suscitada seja registrada em ata, com fundamento, tendo em vista que, se não estiver registrada, haverá grande probabilidade de ser considerada preclusa.

2. "Pela ordem"

É extremamente comum o termo “pela ordem” ser usado como se fosse “questão de ordem”, de modo que, embora, por costume, sejam utilizadas como se sinônimas fossem. Tecnicamente não o são.

O mecanismo do uso da palavra “pela ordem” é uma prerrogativa do irmão.Trata-se do uso da palavra mediante “intervenção sumária”, ou seja, para falar “pela ordem”, é desnecessário que o Venerável Mestre conceda a palavra, deve-se simplesmente fazer a manifestação.

Logo, se a palavra do Irmão for cassada ou o Venerável Mestre negar uma questão de ordem que o Irmão entenda estar ligada ao seu exercício do cargo em Loja, pode utilizar a palavra “pela ordem”.

 

Meus Irmãos vamos revisar algumas dicas:

 

Muitas vezes ouvimos em Loja um obreiro pedir a palavra diretamente ao Venerável Mestre, levantando-se e dizendo “pela ordem!” ou então “questão de ordem!”, principalmente quando a “palavra” está correndo nas Colunas.

 

Com esse pedido o Obreiro quer alertar que a ordem dos Trabalhos não está adequada, ou algo foi suprimido ou algo não está correto. Pode ser feito em qualquer período da Sessão.

 

Uma “questão de ordem” sobrepõe-se a qualquer outro pedido de palavra e quem a pediu só poderá falar, especificamente, sobre a alegada alteração da ordem. Cumpre esclarecer, subsidiariamente, que muitos Irmãos pedem a palavra “pela ordem”, sem saber o que estão fazendo, havendo muitos, inclusive, que acham que “pela ordem!” é pela “Ordem Maçônica” o que é um erro crasso.

 

E aí falam sobre assuntos (na maioria das vezes demoradamente) que não tem nada a ver com o que está ocorrendo no momento.

 

Esclarecendo, No Rito Moderno, sabemos que a “palavra” é concedida, primeiramente na Coluna do Norte, deveria ser:

 

OIr. Chanceler para falar das efemérides (datas de aniversários) - percentual de presentes em Loja, uma breve alusão à data comemorativa -  depois visitantes das colunas, oficiais das colunas.

 

Ai sim o 2º Vigilante com um toque breve do malhete, diz "V.'.M.'. voz peço a palavra - todos falam de pé e a ordem, só o chefe da coluna fala sentado, pois ele é uma das três luzes da Loja.

 

Ai depois na do coluna do Sul, tesoureiro, visitantes, e por final o 1º Vigilante  com as mesmas prerrogativas do Ir. 2º Vig.(um toque leve de malhete)

 

Finalmente, no Oriente.  A ordem segue 1º Secretário, Irmãos mestres visitantes com assentos no Oriente, Orador "falará como Irmão do quadro" - AUTORIDADES com assento à mesa do V.'.M.'., e por fim o Venerável Mestre.

 

Obs. Coordenadores do GM, Deputado Estadual ou Federal, Grandes Secretários do GM, Juizes, etc. falam antes e assinam livro de presença antes também do V.'.M.'.

 

Somente o Grão-Mestre e seu Adj.'. falam e assinam o livro por último. E lógico o Orador quando dá as conclusões - fala o valor do Tronco - SAÚDA OS VISITANTES E AUTORIDADES PRESENTES - isto é prerrogativa do ORADOR. É comum outros irmãos menos esclarecidos “SAUDAREM VISITANTES”, mas deixo claro é errado.

 

O V.'.M.'. pode fazê-lo como voto de cordialidade.

 

A palavra só volta às Colunas para um novo giro quando o pedido for feito por um dos Vigilantes e deferido pelo Venerável Mestre. O VM pode não conceder, é prerrogativa “dele”.

 

Sabemos, também, que o Obreiro não pode mudar de Coluna para poder falar duas vezes. Isso é totalmente anti-maçônico..

 

Finalizando, acrescento que o pedido “pela ordem!” não é exclusividade da Maçonaria e existe em qualquer Instituição, (Tribunais, Congresso Nacional, Assembleias Legislativas, Câmaras ou até mesmo em reuniões de Condomínio), por exemplo, onde a existe uma determinada ordem para apresentação dos assuntos a serem discutidos.

 

Por fim, estudemos nossas Leis, nossos Regimentos e deixemos de lado “USOS e COSTUMES”.

 

Ir. Denilson Forato – M.I.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Os diversos Calendários Maçônicos


Meus Irmãos, estamos retornando nossos trabalhos maçônicos no ano de 2022 EV ou 6022 da VL, mas nosso calendário histórico tem outras formas de se enxergar e entender. 

O calendário maçônico é baseado no começo ou na data de um evento. As Lojas maçônicas têm diferentes ritos e cada um usa (ou deveria usar) um calendário maçônico diferente para celebrar a data de um começo histórico, como a criação do mundo ou um evento histórico específico do rito. Os dados são usados em documentos maçônicos oficiais.

Os dados históricos são simbólicos e não devem ser considerados como uma crença maçônica. Os calendários estão ligados à criação de luz física no universo, com o nascimento espiritual da Maçonaria e a luz intelectual do candidato.

A grande maioria dos calendários começa com a palavra latina Anno, que significa “no ano de”. Existem também as abreviaturas E. C., que significa Era Comum, e E. V. para Era Vulgar. Os Cristãos chamam-na de Era Cristã (E. C.) ou Depois de Cristo (d. C.) e Antes de Cristo (a. C.). O estudo dos calendários maçónicos pode ser frustrante se não se conhece as razões e o simbolismo que eles contêm, mas enriquece o rito que é praticado.

Algumas pessoas anti maçonaria, sem cultura e sem conhecimento de latim, têm insinuado que Anno Lucis, significa o Ano de Lúcifer, explicação totalmente longe da verdade. Na antiguidade todos os certificados maçónicos, placas e documentos eram escritos em latim, pelo que as datas eram baseadas nesse idioma.

A única ideia é mostrar que os princípios que a Maçonaria manipula são tão antigos quanto a existência do mundo.

·                     Índice

As Lojas simbólicas

Rito Escocês Antigo e Aceito

Rito Francês ou Moderno

Rito de York – Cavaleiros Templários

Rito de York – Capítulo do Arco Real

Rito de York – Mestres Reais e Secretos-(Maçonaria Críptica)

 

As Lojas simbólicas

Anno Lucis. O Ano da Luz (A. L. ou A. La), ou o Ano da Verdadeira Luz (A. D. V. L.), simboliza o ano da criação do mundo por Deus. Este calendário não é exclusivo da Maçonaria; foi também usado pela Igreja Católica, por Imperadores e Reis nas suas comunicações.

Significado Histórico: O Ano da Luz, significa o ano da criação do mundo (aproximadamente 4.000 anos antes da Era Comum), como se pode ler no terceiro verso do Génesis na versão da Bíblia do Rei Jaime, bem como na Torá: (1,3) – “E Deus disse, que haja luz e fez-se luz“.

As Lojas Simbólicas do R.E.A.A., Rito Francês, Rito de York na América e na Europa, usam a palavra Anno Lucis (Ano da Luz).

Cálculo: O Anno Lucis acha-se, adicionando 4.000 anos (desde a criação do mundo até à presente data): 4000 aC. + 2022 d.C. = 6022 Anno Lucis). O ano começaria em 1 de Março e terminaria em 28 (ou 29, se aplicável) de Fevereiro do ano seguinte. A datação maçónica é obtida de acordo com o seguinte exemplo: 1 de Março de 2019 = 1º dia do 1º mês de 6022. Os meses são nomeados segundo o nome do calendário hebraico.

Relevância: O calendário das Lojas Simbólicas celebra a criação do mundo. Na teologia convencional, acreditava-se que a Terra foi criada há 4000 anos.

Rito Escocês Antigo e Aceite

Anno Mundi: No ano do mundo (A. M. ou Aa Ma). É a data que indica o ano em que Deus criou o mundo de acordo com o calendário hebraico, de acordo com os cálculos da genealogia encontrados no livro de Génesis. É usado nos altos graus de R. E. A. A..

Significado histórico: O Anno Mundi começa com a criação do mundo e é baseado no calendário hebraico. O ano começa em Setembro, ao contrário do calendário gregoriano que usamos atualmente, no qual o ano começa em Janeiro.

Existem diferenças marcantes entre o calendário hebraico e o calendário gregoriano. No calendário hebraico, alguns meses têm 29 dias e outros, 30.É um calendário lunisolar, ou seja, é baseado nos movimentos da terra ao redor do sol (ano) e da lua ao redor da terra (mês), com base num complexo algoritmo para calcular as estações do ano e as fases da lua. Cada dia começa a contar-se ao pôr do sol que é a hora zero; De acordo com o Génesis, quando Deus criou o tempo, criou primeiro a noite e depois o dia.

Cálculo: O Anno Mundi é calculado adicionando 3760 anos ao calendário atual ou Era Vulgar (E. V.) (3760 + 2022 = 5782). Depois de Setembro, acrescenta-se um ano mais. Os meses e dias são designados pelos seus nomes hebraicos.

§     NISSAN – 21 Março – 20 Abril;

§     JIAR – 21 Abril – 21 Maio;

§     SIVAN – 22 Maio – 21 Junho;

§     THAMOUZ – 22 Junho – 23 Julho;

§     ALO – 24 Julho – 23 Agosto;

§     ELoUl – 24 Agosto – 23 Setembro;

§     TISHRI – 24 Setembro – 23 Outubro;

§     MARJEVAN – 24 Outubro – 22 Novembro;

§     KIsLeY – 23 Novembro – 21 Dezembro;

§     TEBETH – 22 Dezembro – 21 Janeiro;

§     SHEVAT – 22 Janeiro – 19 Fevereiro;

§     ADAR – 20 Fevereiro – 20 Março.

Relevância. O calendário do Rito Escocês Antigo e Aceito celebra a criação do mundo 3760 / 3761 anos antes da Era Comum (E. C. ou E. V.).

Rito Francês ou Moderno

O Rito Francês usa o Anno Lucis. O Ano da Luz (A.L. ou A. La) ou o Ano da Verdadeira Luz (A. D. V. L.) é o ano da criação do mundo por Deus. Também acrescenta 4000 anos à data atual, mas o ano maçónico começa (ou deveria) em 1 de Março.

Este mês leva o nome da ordem numérica que ocupa e é então chamado de primeiro mês, Abril é o segundo mês e assim por diante.

Cálculo: O Anno Lucis calcula-se somando 4000 anos ao calendário Gregoriano ou Era Vulgar (4000 + 2022 = 6022); costuma-se datar o Rito Francês assim: quinto dia do primeiro mês de 6022 A. L. (5 de Março de 2022).

Rito de York – Cavaleiros Templários

Anno Ordinis. O ano da Ordem (A. O. ou Aa Oa) – 1118 E. C..

Significado Histórico: No ano 1118 E. C., nove cavaleiros franceses fundam a Ordem dos Pobres Companheiros de Cristo e do Templo de Salomão para proteger os peregrinos que se dirigiam à cidade de Jerusalém. O Rito de York e os Ritos dos Cavaleiros Templários baseiam o seu calendário na data da criação da ordem.

Cálculo: O Anno Ordinis obtém-se subtraindo 1118 anos da Era Vulgar, 2022 – 1118 = 904 A. O. (Ano da Ordem).

Relevância: O ano 904 A. O., celebra a existência operativa e especulativa dos Cavaleiros Templários cuja origem foi no ano 1118.

Rito de York – Capítulo do Arco Real

Anno Inventionis. No ano da descoberta. (A. I. ou Aa Ia) (530 a. C.).

Significado histórico: o rei Salomão construiu o primeiro templo. Zorobabel construiu o segundo templo, acredita-se que no ano 530 A. C. Pouco se sabe de Zorobabel, exceto que liderou o retorno dos judeus depois do seu cativeiro na Babilónia. Zorobabel foi governador da Judeia, nomeado pelo rei Ciro dos persas.

Cálculo: O Anno Inventionis é obtido adicionando 530 anos à data atual. Então 2022 + 530 = 2549 A. I. (ano da descoberta)

Relevância: O ano 2552 A. I. celebra a construção do segundo templo. Acredita-se que este templo foi construído muito perto de onde o antigo templo de Salomão foi construído.

Rito de York – Mestres Reais e Secretos (Maçonaria Críptica)

Anno Depositionis. Significa em latim, o Ano do Depósito. (A. Dep., aproximadamente 1000 a. C.).

Significado histórico: É o ano em que o primeiro templo de Salomão foi construído, e os seus segredos foram colocados sob as suas abóbadas, é por isso que se fala de Ano do Depósito. Os cálculos colocam-no 1000 anos antes de Cristo.

Cálculo: O calendário maçónico usado pelos Mestres Reais e Secretos é baseado na adição de 1000 anos ao tempo atual. 2022 E. C. ou E. V. + 1000 anos = 3022 A. Dep. (Anno Depositionis).

Relevância: O calendário maçónico dos Mestres Reais e Secretos da Maçonaria Crítica celebra o dia em que o templo de Salomão foi concluído.

 

Tradução e Adaptação de Ir.'. Denilson Forato

 


segunda-feira, 10 de janeiro de 2022

Dia do Fico, 9 de janeiro

 Neste Nove de Janeiro de 2022, comemoram-se os 200 anos do Dia do Fico, data crucial para a independência do Brasil, em 1822. Há, porém, um mistério nessa história. A famosa frase de dom Pedro teria sido mudado à última hora, à sua revelia. Quem o teria feito? Por que razão?

Pela versão mais conhecida da história, no Dia do Fico, o futuro imperador Pedro I recebeu um documento com 8.000 assinaturas pedindo a sua permanência no Rio de Janeiro, desobedecendo assim as ordens das Cortes Constituintes Portuguesas, que exigiam sua imediata volta a Lisboa.

Depois de ler o abaixo-assinado, dom Pedro teria se encaminhado até uma das janelas laterais do Paço Imperial, no centro da cidade, de onde pronunciaria uma frase decidida e corajosa: “Como é para bem de todos e felicidade geral da nação, estou pronto: diga ao povo que fico!”

Há, porém, outra versão dessa frase. As primeiras palavras de dom Pedro teriam sido pronunciadas em tom cauteloso: “Convencido de que a presença de minha pessoa no Brasil interessa ao bem de toda a nação portuguesa, e conhecido que a vontade de algumas províncias assim o requer".

Em seguida, de forma ainda mais comedida e diplomática, teria anunciado: "Demorarei a minha saída até que as cortes e o meu Augusto Pai e Senhor deliberem a este respeito, com perfeito conhecimento das circunstâncias que têm ocorrido”.

Portanto, em momento algum dom Pedro teria anunciado que "ficaria" no Brasil, desobecendo as ordens de Lisboa, mas apenas que "demoraria" a partida do Rio de Janeiro até que as próprias cortes e o pai, dom João VI, decidissem o seu destino.

Essa versão da frase de dom Pedro consta dos autos da vereação e do edital publicados no mesmo dia. Ela indica uma resposta prudente, sem rompimentos, na qual o príncipe invocava “o bem de toda a nação portuguesa” e o respeito às cortes e ao seu pai e rei de Portugal.

Misteriosamente, no dia seguinte um novo edital foi publicado com palavras mais enérgicas. Quem teria mudado a frase?  A suspeita recai sobre a maçonaria, na época empenhada em promover dom Pedro a protagonista da Independência. A nova versão estava de acordo com seus interesses.

O abaixo-assinado do Dia do Fico fora preparado  em uma modesta cela no Convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca, por frei Francisco Sampaio, ligado à maçonaria. Seria também ele o “editor” final da frase de dom Pedro, que passaria para a história na sua versão atual?

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

Maçonaria, os problemas se repetem.

 




Choque de gerações, novos tempos, entre outros assuntos que envolvem mudanças na Maçonaria costumam gerar bastante polêmica.

No entanto, este artigo se propõe a demonstrar que nem tudo é o que parece e que, muitas vezes, aquilo que é interpretado como um problema da modernidade, na realidade, não tem nada de novo.

Antes da Era da Informação, a Maçonaria brasileira no geral, bem como uma grande quantidade de lojas em particular, viviam numa espécie de bolha de realidade, isoladas do restante do mundo e da história maçônica em uma série de coisas. Afinal, manuscritos, livros e até mesmo conversas com o resto do mundo ficavam restritos a uns poucos.

Mas a realidade atual é outra. E, através de dez exemplos reais, este artigo demonstrará que muitas vezes aquilo que é percebido como uma mudança ruim, na realidade, nada mais é do que um fenômeno antigo.

 

1) RITUAL CANIBALIZADO?

 

Algum tempo atrás  um irmão me ligou e dizia-se chateado com os desdobramentos do Rito Escocês Antigo e Aceito no Grande.Segundo ele, o ritual havia sido canibalizado e havia uma insatisfação geral na loja com seu conteúdo. Cogitavam até trocar de Potência.

Pedi pra ver o ritual e pude constatar que diversos dos enxertos que foram feitos ao rito nas últimas décadas haviam sido removidos. De modo que aquele era um dos rituais mais próximos do ritual francês de 1829 em prática aqui no Brasil. Quando esclareci isso a meu amigo, ele demonstrou enorme surpresa.

Não importa se alguém é contra ou a favor da revisão dos rituais e eliminação dos enxertos. Fato é que, muitas vezes, os rituais revisados podem se basear numa prática mais antiga. Não se pode considerar que isso seja uma inovação!

 

2) SEM ENTRADA RITUALÍSTICA

 

Numa crítica em 2019/2020 às sessões virtuais, presenciei alguns irmãos dizendo que não poderiam considerar aquilo como sessão porque não havia como ter entrada ritualística em uma sessão virtual.

Independente da posição que alguém tenha sobre sessões virtuais, ocorre que entrada ritualística não é prevista em diversos ritos ou trabalhos. Alguns ritos, entre outros, preveem que os trabalhos comecem com os irmãos já em loja.

Mesmo no Rito Escocês Antigo e Aceito, a entrada ritualística não consta nos primeiros rituais. O que não quer dizer que ela seja ruim. Apenas, não se define Maçonaria a partir desse fato.

 

3) CONTRA O ESPÍRITO DA COISA?

 

Outra crítica às reuniões virtuais diz que conceder graus de forma virtual quebraria o espírito da coisa, já que não teríamos ritualística e a passagem se resumiria a uma mera leitura.

A crítica a isso ser um processo sem graça e bem inferior à teatralidade e às cerimônias das sessões não deixa de ser bastante válida. O problema é que novamente isso é apontado como um problema moderno.

Se alguém atentar para os rituais originais de Charleston do REAA, produzidos no começo do século 19, verá que a ritualística era extremamente simples e os graus eram quase que essencialmente leitura.

A teatralização e maior elaboração das cerimônias foi algo que começou a ser desenvolvido meados do século 19 em diante.

 

4) USO DE NOVAS TECNOLOGIAS

 

Outro problema apontado como recente seria o uso de novas tecnologias.

Porém, uma gravura datando de cerca de 1900, no acervo do museu do Rito Escocês do Supremo do Norte dos EUA (Alexandria-Virginia) mostra um retroprojetor sendo usado em loja para ilustrar o conceito dos graus.

Em outras palavras, a Maçonaria já incorpora novas tecnologias a favor de suas sessões há mais de 120 anos!

 

5) A MAÇONARIA AGORA ACEITA MULHERES?

 

Recentemente, a Grande Loja Unida da Inglaterra postou uma foto conjunta com a Maçonaria feminina.

A foto gerou vários comentários raivosos de maçons brasileiros mas, o que chamou a atenção foram alguns comentários reclamando da ‘modernidade’ no aceite de mulheres na Maçonaria, o que uns classificavam como traição, outros como comércio, uns tantos ainda como o presságio apocalíptico do fim da Maçonaria.

Ocorre, porém, que existem duas Grandes Lojas femininas na Inglaterra com quem a GLUI tem amizade: a Honourable Fraternity of Ancient Freemasons, que foi fundada em 1913, e a Order of Freemasonry for Women, que se tornou estritamente feminina na década de 1920.

Como se pode ver, a Maçonaria feminina na Inglaterra tem literalmente mais de um século. Além de décadas de amizade com a GLUI. Ou seja, não se trata de uma questão recente. Mas ainda são, as mulheres de um lado, e homens de outro. As coisas se dão por r tratados políticos, só isso. O Landmark 18 não foi extinto. Atentem a isso.

 

6) ESTÃO DESRESPEITANDO OS LANDMARKS?

 

Analogamente, não é incomum ver maçons alegando que algo vai contra os Landmarks quando veem coisas que lhes causam estranheza. E qual não é o espanto de muitos ao saber que os landmarks de Mackey, criados em 1858, nunca foram adotados como critério pela Inglaterra, que é quem mais dá as cartas em termos de regularidade maçônica no mundo e tem seus próprios Princípios de Regularidade, nem são adotados como padrão universal pelas Grandes Lojas norte-americanas.

Isso sem contar que, ao longo do século 19, vários compilados de landmarks foram propostos por autores diferentes. Nenhum deles foi adotado de forma universal.

Discussões, portanto, revolvendo em torno de coisas que destoam os landmarks de Mackey também não podem ser tratadas como inovações.

 

7) REVISIONISMO?

 

Não são poucos os que vociferam contra irmãos que se levantam para denunciar as ideias e alegações fantasiosas de autores como Rizzardo da Camino, Jorge Adoum, Jean-Marie Ragon, entre outros. Alegam que fazer tal coisa seria matar a alma da Maçonaria.

Mas, novamente, essa questão está longe de ser uma atitude revisionista moderna.

Muito pelo contrário, a própria loja Quatuor Coronati 2076, da Grande Loja Unida da Inglaterra, foi fundada exatamente porque os maçons ingleses já questionavam desde, pelo menos, meados século 19, as ideias fantasiosas propagadas por alguns sobre as origens e desenvolvimentos da Maçonaria.

E os registros históricos da Quatuor Coronati indicam que a loja questionava ideias lendárias propagadas por ninguém menos do que o próprio James Anderson, autor das famosas constituições que carregam seu nome.

Ou seja, a Maçonaria nunca teve um autor como sagrado ou acima de qualquer crítica, e sempre teve pessoas que criticaram a romantização de suas origens.

 

8) MAÇONS NÃO ESTUDAM MAIS?

 

Igualmente é comum ver irmãos reclamando que nos tempos deles os estudos eram sérios e supostamente muito mais conhecedores de Maçonaria do que atualmente, como se os tempos atuais fossem piores.

No entanto, em 1875, Albert Mackey fez a seguinte reclamação:

 

“No entanto, nada é mais comum do que encontrar maçons que estão em trevas totais sobre tudo o que se relaciona com a Maçonaria. Eles são ignorantes de sua história – eles não sabem se é uma produção de cogumelos hoje, ou se remonta a idades remotas em sua origem. Eles não têm compreensão do significado esotérico de seus símbolos ou suas cerimônias, e dificilmente estão familiarizados com seus modos de reconhecimento. E, no entanto, nada é mais comum do que encontrar tais pseudo-sábios de posse de altos graus e às vezes honrados com assuntos elevados na ordem, presentes nas reuniões de lojas e capítulos, intermediando com o processo, tomando uma parte ativa em todas as discussões e teimosamente mantendo opiniões heterodoxas em oposição ao juízo de irmãos de maior conhecimento.” (Reading Masons and Masons Who Do Not Read)[1]

 

Ou seja, o problema de haver uma grande quantidade de maçons ignorantes, e pior, ostentando altos graus, cargos administrativos, etc. não é exatamente um problema novo.

 

9) AVENTAIS

 

Outra discussão que recentemente presenciei dizia respeito ao Rito Escocês Antigo e Aceito nas Potências da COMAB. Alguns irmãos reclamavam que a COMAB teria “suprimido as rosetas” em prol do típico M. B. no avental de Mestre.

Outros ainda discutiam o padrão dos aventais de Mestre Instalado. Novamente, acusando alguns de quererem inovar.

Ocorre, porém, que um manual dos graus franceses publicado em 1820, em Paris, descreve o ritual de Mestre como tendo justamente o M. B. utilizado pela COMAB.

E, pra piorar, temos o fato de que Instalação é algo inexistente na origem do Rito Escocês Antigo e Aceito, tendo sido incorporada ao rito aqui no Brasil e em outros países. Ou seja, na origem, o REAA não tinha avental de Mestre Instalado, de modo que não importa o padrão, já que não há um padrão original a ser seguido.

 

10) EGRÉGORA

 

Outra preocupação muito constante entre alguns irmãos é que determinadas posturas corporais ou pequenos desvios ritualísticos possam comprometer a egrégora da loja. Reclamam que as novas gerações não atentam para coisas que poderiam supostamente quebrá-la.

Sem entrar no mérito da questão de se egrégora existe ou não, fato é que até pouco tempo atrás não se ouvia falar tal termo em Maçonaria. E ele certamente não figura em nenhum ritual histórico da Maçonaria nos seus principais ritos e sistemas.

Ou seja, ironicamente, o conceito de egrégora é, em si, a inovação, não os desvios que poderiam supostamente comprometê-la!

 

Considerações finais

 

A lista poderia continuar, com dezenas de outros exemplos, mas os dez acima já são mais do que suficientes para ilustrar o ponto.

Como se pode perceber, uma parte considerável dos incômodos levantados por alguns irmãos com as supostas mudanças ou inovações dos tempos atuais ou das novas gerações estão muito longe de ser assim. Pelo contrário, às vezes representam até mesmo um resgate de práticas mais antigas.

É importante compreender que a postura do “porque sim” ou do “sempre fizemos desse jeito nesta loja”, para justificar ideias ou práticas, não sobrevivem à possibilidade de escrutínio que a Era da Informação nos trouxe, em que fontes podem ser checadas e informações outrora tidas como verdadeiras podem ser facilmente invalidadas.

A Maçonaria não corre, portanto, risco de extinção por esse processo. Nem é justo atribuir tais coisas, como alguns fazem, ao “danoso espírito inovador.”

Ela poderá uma dia acabar, por causa da “ignorância” dos Irmãos.