segunda-feira, 13 de abril de 2020

A LIÇÃO DA PEDRA BRUTA PARA O MAÇOM

Ao entrar para a Ordem, a primeira imagem com a qual o Aprendiz Maçom toma contato, sob um ponto de vista sintetiza boa parte (senão todos) dos símbolos pertinentes a seu presente estágio e, sob outro aspecto, ela traz em si a indicação do trabalho que começou a ser realizado por aquele que iniciou o seu longo aprendizado.
Descrevendo rapidamente, a imagem apresenta um jovem olhando em direção a um bloco disforme de pedra. Este jovem, provavelmente um pedreiro ou um escultor, traz consigo os instrumentos de seu ofício: um malho e um cinzel. Em uma primeira vista, logo notamos que, pelo menos os já citados quatro elementos básicos da imagem, saltam aos nossos olhos. Repetindo, são eles: o próprio pedreiro, o malho, o cinzel e a pedra bruta.
Para podermos iniciar nossas rápida exposição – tanto sobre esses elementos quanto sobre o conjunto que a imagem em si representa, como um todo – é necessário que voltemos um pouco no tempo para nos lembrar da época em que assim chamada Maçonaria, hoje especulativa, era considerada operativa.
Naquele tempo, com a evolução da arte de se construir, o material utilizado nas edificações aos poucos passaria de madeira para pedra e, depois, da pedra para a pedra trabalhada. Assim, as construções iam se tornando mais sólidas e belas. O trabalho na pedra bruta visava, principalmente, a preparar um conjunto de peças para que essas se moldassem e se encaixassem em um todo maior de pedras, e que todo as estivessem em conformidade com o projeto dos “construtores”. No campo operativo, boa parte do trabalho de lapidação executado pelo novos Pedreiros era feito com o suo de, entre tantos outros materiais, três elementos básicos : a Pedra em si, o Martelo (ou Malho) e o Prego (ou Cinzel).
Talvez como efeito do avanço industrial, quando a máquina começava a substituir a mão-de-obra humana, por volta da segunda década do século 18, a Maçonaria passaria a ser considerada de ordem especulativa. Assim, boa parte dos componentes materiais até então utilizados no ofício e na arte da construção passaria a compor símbolos, cuja natureza, ainda associada às edificações, agora também estariam relacionados a aspectos internos do ser humano, sejam esses aspectos de ordem moral, sejam de ordem espiritual.
Dessa forma, o que antes era visto como a preparação para se produzir peças perfeitas, agora ganhava os contornos de símbolos que visavam à edificação do verdadeiro homem. Para tal, assim como acontecia com os blocos de pedra bruta, o próprio homem necessitaria ser trabalhado, ou lapidado, para que sua perfeição enfim se mostrasse.
Na já citada imagem do Grau de Aprendiz, vemos o jovem pedreiro trabalhando a pedra bruta. Para a realização desse trabalho, ele emprega o Cinzel e o Malho. O Malho se encontra em sua mão direita, enquanto o Cinzel está na esquerda. Comparando a pedra com o homem, é mostrado que ela, em seu estado bruto, se encontra disforme, distante de um possível estado de perfeição que, mais tarde, será representado pela Pedra Cúbica; igualmente, esse trabalho de lapidação poderá ocorrer com o próprio ser humano.
Ora se identificando com a Pedra, ora com o Pedreiro, o Aprendiz terá todos os elementos necessários para trabalhar a si próprio. Esses elementos estão representados pelos já mencionados Malho e Cinzel.
Superficialmente, alguns autores relacionam o Malho ao elemento ativo da obra de desbaste da Pedra Bruta, enquanto que o Cinzel seria o elemento passivo. O primeiro estaria associado à força e ao intelecto, enquanto que o segundo diria respeito à arte de esculpir propriamente dita. Em uma análise um pouco mais criteriosa, o Malho seguro pela mão direita, é entendido como sendo um símbolo da ação pura da vontade o Aprendiz, atuando com perseverança e continuidade sobre a Pedra, enquanto o Cinzel é visto como a capacidade de orientação e observação, a capacidade de saber discernir o que deve ou não ser retirado do bloco em trabalho. Sob o ponto de vista iniciático, Malho e Cinzel podem ser percebidos, respectivamente, como a Tradição, que prepara, e como a Tradição, que prepara, e como a Revelação, que cria. Um é inútil sem o outro, e eles atuam em conformidade com o Princípio Hermético da Polaridade, que diz que “tudo é duplo”.
Se uma forma de assimilação do símbolo do Grau de Aprendiz o mostra trabalhando a Pedra Bruta, um outro entendimento, de ordem ainda superior, nos fala que o Aprendiz, sendo a própria Pedra a ser desbastada, “sofrerá” a ação do Grande Escultor, que fará uso dos elementos necessário à realização da Obra final.
Mas qual seria a relação direta do Bem e do Mal com a lição Pedra Bruta? Estes dois conceitos, Bem e Mal, ocuparam e certamente continuarão ocupando a mente de todos e quaisquer estudantes das Ciências Antigas. Genericamente tomados como conceitos absolutos – nos quais primeiramente poderíamos simplesmente optar por um (normalmente o Bem) e esquecer o outro – tais aspectos da criação são de tamanha relatividade que defini-los satisfatoriamente pode parecer tarefa assaz dura, senão francamente impossível. Assim, iremos nos limitar a dissertar de modo livre e sucinto sobre os mesmos sempre tendo em mente o símbolo da Pedra Bruta, bem como nossa fé e confiança no Grande Artesão.
Em princípio, quanto mais livre de conceitos (sobremodo conceitos religiosos) preestabelecidos estiver a mente de alguém, mais apta esta mente estará para perceber os notáveis equívocos, alguns seculares, com os quais estamos obrigados a conviver. Por exemplo, tornou-se uso comum associar Deus tão somente ao Bem, relegando todos os aspectos supostamente vis da criação, as “coisas” ruins, ao seu eterno opositor. Dessa forma, a perene luta Bem versus Mal, tendo seu palco há muito armado, segue seu rumo em direção ao eterno.
Somente como ilustração para este equívoco, citamos um trecho, extraído dos códigos de uma das crenças mais populares de nosso país. Este trecho afirma, de modo claro, taxativo, lapidar e final ser “[….] Deus, soberanamente justo e bom”…. A suposição de que algo seja “justo e bom”, mesmo muito antes de poder ser considerada primária, deve ser vista como realmente é, ou seja, ilógica, até mesma contraditória.
O Segundo Princípio elaborado por aquele Três Vezes Grande, o Princípio de Correspondência nos diz que “o que está em cima é como o que está em baixo”…. Segundo a lógica hermética, sabemos que, em tese, um juiz, quando emite uma sentença ou julga uma causa humana, intenta nada mais ser senão justo. Ele não deseja ser nem bom e nem mau, mas apenas justo. As demais partes envolvidas são as que, segundo a conveniência de cada uma, entendem ter sido o seu veredicto, a sentença, boa ou má.
Da mesma forma, seguindo o Princípio Hermético das Correspondências, podemos supor o mesmo a respeito do Grande Juiz, o Criador. Se Ele é justo, como creem, é apenas justo. Nós, suas criaturas, é que, dentro de nossa limitada compreensão, entendemos serem as Sua ações mera consequência de um possível Bem o Mal. E exatamente nisto, em Sua Justiça, está a Sua Perfeição. Não é à toa que os maçons se utilizam do mote “Justo e Perfeito”, e nunca “Justo e Bom”.
Seguindo o raciocínio sobre o Bem e o Mal, no trabalho de lapidação da Pedra Bruta duas vontades parecem agir de modo concomitante : a primeira vontade seguirá os desígnios do Criador, que é soberana. A vontade secundária partiria da própria Pedra, ou do indivíduo a ser trabalhado, no caso, o Aprendiz. Em ambas possibilidades, intenta-se obter o produto final na forma de uma pedra Justa e Perfeita. Ela é Justa, pois está adequada à Sua Obra, e é Perfeita, pois também está em conformidade com a Perfeição de Seu Plano Maior.
O livre-arbítrio que, em princípio, parece dirigir a vontade de Aprendiz, nada mais é do que a faculdade que lhe dá a chance de estar em harmonia com a vontade Maior que o criou. Nesse caso, as duas vontades, sendo harmônicas, passam a ser uma única Vontade. Então, poderíamos entender o Bem como sendo a capacidade do Aprendiz de pôr a própria vontade em sintonia com a vontade Superior, enquanto o Mal simplesmente representaria a opção contrária a esta.
Um outro aspecto do símbolo, presente no processo de tornar desbastada a pedra bruta, também muito teria a acrescentar. Sob um certo ponto de vista, a Pedra Bruta é entendida como um estado original de liberdade, enquanto que a pedra trabalhada é vista como sendo nade mais do que o produto da submissão de uma individualidade pela força. Mas por hora, devido á densidade deste particular modo de entendimento da lição da Pedra Bruta, não gostaria de me aprofundar.
Para encerrar, diria apenas que cabe a cada um de nós descobrir a sutil diferença entre a perfeição da pedra trabalhada e a submissão que o desbastar da pedra por vezes representa. Não reconhecer tal diferença pode nos levar a ser, simplesmente, um mero produto de nosso meio, mais uma peça moldada à revelia de nossa própria vontade, de nosso próprio querer.
Enfim, talvez a diferença possa estar no fato de que, enquanto uma traz em si mesma o objetivo de toda Iniciação, ou seja, a fiel expressão da vontade do conjunto Criador e Criatura, constituindo uma verdadeira joia – a outra não passará de um mero capricho da manipulação profana, apenas mais um tijolo na parede, fadado a nada mais senão o esquecimento.

COMPROMETER-SE COM A MAÇONARIA


Não há como negar a perspectiva de mudanças na sociedade que vivemos. Talvez, nunca tenha havido tamanha difusão de informações, principalmente nas áreas da política e da economia, que tanto atingiram o comportamento dos cidadãos, como está acontecendo agora.O lado positivo dessas mudanças é a quebra da inércia e a iniciativa as quais nos vemos estimulados a assumir. O lado negativo é que a mudança gera hiperatividade. O esforço exigido de nós nos torna pouco tolerantes frente a posturas diferentes das que tomamos ou acreditamos.
O ponto central é que, desta forma, nos contrapomos a valores essencialmente maçônicos, como a tolerância e a liberdade, chegando às vias do descabido desrespeito às autoridades constituídas e aos princípios universais da fraternidade e irmandade.
O acúmulo de informações acaba por gerar mais incertezas do que, de fato, informação.
Não sabemos se estamos lidando com um fato isento ou com uma versão dirigida do fato.

Diante de tantos fake news na vida profana, a instrução maçônica nesta conjuntura é “vencer MINHAS paixões”. Atenção à sutileza! Não se vence as paixões, pois elas são poderosos sentimentos que agem como motores da vida, como ter paixão pela família, por exemplo.
A serenidade maçônica exige de nós consciência dos efeitos da paixão, especialmente quando ela, de tão intensa, se mistura à alma e nos afasta da razão, seja através do sentimento de amor ou ódio, e acaba por alterar o comportamento.
Ocorrendo isso, a Pedra Cúbica, que um dia foi polida e medida no esquadro, trinca e perde os ângulos da retidão. Do seu âmago surgem as arestas, que a ferem e a retornam à condição de Pedra Bruta.
Não existe um processo de reiniciação. Uma vez desvendados os olhos e apresentado ao novo Irmão a Luz, a mensagem permanecerá inextinguivelmente gravada no seu peito e na sua mente.
Então, como ocorrem os desvios?
Eles são resultantes de uma relação dinâmica, portanto, em movimento, da tríade: Obreiro / Compromisso / Obra.
O MAÇOM NÃO “É” OU “’ESTÁ” MAÇOM.
O MAÇOM É AQUELE QUE SE COMPROMETE COM A MAÇONARIA.
Não basta ser iniciado nas virtudes. É preciso ser inspirador de almas para a prática dos comportamentos e valores aos quais fomos iniciados.Precisamos, permanentemente, retornar à Câmara de Reflexão e lembrar que foi lá começou nosso comprometimento.
A espada, outrora elemento de poder é, para nós, a lembrança da honra e da lealdade que devemos aos Sãos Princípios. Para um cavaleiro inábil, sua espada pode ser um estorvo. Assim é para o Maçom a lamina do “comprometer-se”. Sua destreza ou não, o levará a tornar-se responsável pela vitória ou ser responsabilizado pela derrota.
Pela prática incessante do exercício físico, mental e espiritual de toda a complexidade que envolve os símbolos da nossa construção social é que deixaremos um legado positivo às futuras gerações.

SEJA COMEDIDO

Algumas instruções maçônicas são explicitas e não necessitam de elucubrações. Em alguns casos, chega a ser até perigoso desenvolver argumentos e teses sobre, por exemplo, qual é a tonalidade de azul do teto do Templo?A coisa essencial, inclusive a simbólica, é simples; O teto é azul, pois, nos remete à infinitude do universo sobre nossas cabeças. Ponto!
Os outros elementos que compõem a ABÓBADA CELESTE, que em alguns Ritos tem outros não, mas está lá, sem dúvida, visível ou invisível,  têm também nome, posição e significado. Alguns desses elementos sequer são nominados nos rituais, mas, não significa que estão ali completando o céu ou decorando a Loja. Seus propósitos serão desvendados somente pela observação e pelo uso da sagrada Palavra de Passe: POR QUE.
Você desconhecia esta Palavra de Passe? Ela há muito tempo é o maior legado dos primeiros maçons especulativos e, às vezes, parece que caiu em desuso.
Alerto aos Irmãos que esta reflexão trata apenas de uma alegoria de caráter especulativo/provocativo.
Além e acima das instruções explicitas e implícitas, há aquelas recorrentes e algumas outras que são transmitidas em situações especiais, muitas vezes inseridas em um contexto em que elas podem nos parecer descabidas.
Estamos acostumados às aclamações vigorosas e vibrantes, que fazem as paredes tremerem. Natural, pois estamos alegres com a presença dos Irmãos. Mas, e se houvesse uma ausência?
Um Irmão querido, um Respeitabilíssimo Mestre, cuja existência material tenha sucumbido? Então, neste ambiente de consternação, estaremos apáticos e, certamente, a aclamação sairia em um tom baixo e respeitoso.
Interessante observar que essas diferenças de situação e de linguagem são mais próprias de um consenso social arraigado, do que materialmente prescrito nos rituais.
Mas há uma instrução curta, poucas vezes passada aos Irmãos e que acontece justamente quando muitos Maçons a desacreditam.
Somos alertados no Banquete Maçônico de que nossa conduta deve ser comedida e que é próprio do Maçom o comedimento.
O Comedimento Maçônico vai além da frugalidade, da austeridade, do beber e comer moderadamente. Realizamos este comedimento quando entendemos que a circunspeção é nossa capacidade de analisar todos os lados inseparavelmente da discrição sobre tudo aquilo que analisamos.
Não falamos aqui de um autocontrole momentâneo conveniente. Mas, sim, do efetivo autodomínio. O Comedimento Maçônico não pode ser confundido com a perigosa austeridade, que mais se preocupa em apontar o caminho do inferno do que salvar o espírito.
Nosso comedimento é a harmoniosa frugalidade de ser servido e saber servir àqueles com os quais compartilhamos o pão da vida e o vinho da alma.
A VIRTUDE SE FORTALECE JUSTAMENTE DIANTE DO VICIO.

Os baixos graus...

A Maçonaria é uma Ordem Iniciática, progressiva, fraternal e de cariz filosófico e devido a isso o modo de adquirir “conhecimento”, de “Luz”, é feito de uma forma gradual e ao longo dos tempos.
Na Maçonaria existem as chamadas Lojas Simbólicas ou “Azuis” que trabalham exclusivamente os três primeiros graus da Maçonaria (Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçom) e as Lojas dos Graus Filosóficos ou Capitulares ou comumente designadas por Lojas dos Altos Graus da Maçonaria, sendo que um dos motivos que levaram à criação destes graus superiores é o processo gradativo-iniciático da obtenção de “Luz” na Maçonaria.
E por “Alto Grau” ou “grau superior” entende-se qualquer grau que algum maçom detenha, e no qual tenha sido iniciado ou comunicado, acima do terceiro grau da Maçonaria, o Grau de Mestre Maçom.
O total ou quantidade destes designados “altos graus” depende do Rito que seja trabalhado ou ao qual pertençam os maçons, sendo que geralmente o público ouve habitualmente falar nos trinta e três graus da Maçonaria, mas estes apenas são graus numéricos exclusivos de alguns Ritos maçônicos e não de todos os que existem pelo mundo a fora…
Nem todos os maçons detêm graus acima do terceiro grau, pois este é aceite como o grau supremo da Maçonaria, o último grau maçônico, o resto são complementos à formação do maçom considerando que este é um indivíduo espiritual e com características especulativas e filosóficas.
Por isso, para qualquer maçom que se preze, isto é, que seja reconhecido como tal pelos seus pares, e para qualquer maçom que foi elevado ao grau de Mestre, este já completou a sua caminhada simbólica, mas nunca terá terminado a sua caminhada espiritual.
E aqueles que sentem a necessidade ou a vontade de percorrer ou continuar em percorrer este caminho geralmente seguem para os Altos Graus do seu Rito ou de outros que existem; é possível ser-se membro simultaneamente de vários Ritos nas Lojas dos “Altos Graus”, algo que está vedado aos maçons na Maçonaria Simbólica, a maçonaria das “Lojas Azuis”, em que cada maçom apenas pode pertencer em exclusivo a uma Loja, mas podendo sempre visitar ou auxiliar os trabalhos de qualquer outra Loja da sua Obediência ou com a qual esta tenha relações maçônicas.
Novamente saliento que nem todos os maçons sentem essa necessidade, uns porque tal se torna dispendioso para os seus bolsos ou por manifesta falta de tempo, outros porque retiram da Maçonaria, nas Lojas Azuis, aquilo que necessitam para a sua vida espiritual, outros inclusive porque consideram que tal não lhes interessa mesmo de fato!
E é por aí que eu abordo este tema…
Porque é que alguns maçons consideram que não lhes interessa sequer pertencer aos designados corpos dos “Altos Graus, “corpos” estes que gerem e supervisionam todos graus acima do Grau de Mestre Maçom; sendo que estes “Corpos Rituais” são independentes e têm uma administração autônoma das Grandes Lojas ou Grandes Orientes que apenas supervisionam as Lojas dos três primeiros graus da Maçonaria.
Na Maçonaria qualquer maçom que detenha o 3º Grau tem tanta importância ou valor como um maçom que detenha um 18º Grau, o 30º Grau ou 33º Grau, do REAA ou outros como 7º, 8º ou 9º do Moderno e quem pensar o contrário ou não sabe o que é a Maçonaria e ao que esta se propõe ou então não interiorizou bem os princípios filosóficos e iniciáticos desta Instituição.
Naturalmente que poderão existir algumas diferenças, mas nada de demasiada relevância, pois quem apenas detém o 3ºGrau não adquiriu ainda um complemento importante na sua formação maçônica, pois nos chamados “Altos Graus” são abordados temas mais abrangentes do que nas Lojas Simbólicas, as Lojas dos três primeiros graus maçônicos. Mas também não vem mal ao mundo por existirem maçons que não tenham essa vontade em persistir na obtenção de tais ensinamentos.
São importantes, mas não tanto… –
O que de fato é importante entre maçons são o reconhecimento maçônico, o labor empregue na vivência da praxis maçônica e o sentimento fraternal que envolve os membros desta Ordem fraternal e filosófica.
Mas para quem sente a vontade de ir mais além, existe sempre a possibilidade de ingressar nestes “Graus”. Contudo, todos sabemos que nada se faz, e em qualquer sítio, sem empenho e sem estudo e na Maçonaria isso é muito importante, pois os Altos Graus devem ser também estes – e principalmente estes (!) – graus de estudo e de reflexão.
Mas, e se nestes “Corpos Rituais” existem maçons que não querem estudar, nada fazer, e que apenas lhes interessa ostentar uma determinada graduação como se isso fosse importante para a profanidade ou para a maioria dos membros da Ordem, que tipo de reflexão pode ser feita realmente nestas Lojas Filosóficas/Capitulares?!
Se nesses “Corpos Rituais” existirem membros que nas suas Lojas Simbólicas nada fazem ou com nada se comprometem, cumprindo inclusive mal as funções que lhes foram atribuídas pela Loja e que até o seu Ritual, o ritual que praticam, o executam mal ou de forma deficiente, que trabalho poderá ser expectável deste tipo de obreiros?
Será afinal mais importante para alguém passear um avental diferente ou afirmar que tem o grau X ou Y?
Terão os “Corpos Rituais” interesse em ter gente assim nas suas fileiras?!
Serão esses membros assim tão importantes para as Obediências e “Corpos Rituais” para os manterem como seus obreiros?!
E serão efetivamente estes membros das Obediências e “Corpos Rituais”  reconhecidos maçonicamente pelos seus iguais?
Mesmo quando estes elementos nem sequer conseguem auxiliar ou retirar qualquer dúvida aos seus Irmãos Aprendizes e Irmãos Companheiros das suas Lojas simbólicas quando estes lhes as apresentam?!
Felizmente para a Maçonaria (!) estes casos são poucos e com pouca expressão, mas não deixam de existir e geralmente são esses casos que depois originam situações que nada abonam para  a Maçonaria.
Para mim pessoalmente tais personalidades não detêm nenhum grau elevado, mas apenas ostentam um “baixo grau maçônico”, sendo isso o que seja!
E sendo assim tão poucos, porque não são reformatados para terem o comportamento adequado e que é esperado de um maçom, principalmente com uma graduação tão elevada?!
Não seria em última instância e dada a sua falta de vontade, repetitiva, em mudar a sua forma de estar, lhe ser  indicada a porta correcta, para eles seguirem o seu caminho?!


No entanto, é quando, por vezes, estes detentores dos “baixos graus maçônicos” se gabam por ostentarem tais graus como se fossem supremas sapiências no que aos temas maçônicos toca, que até se me “arrepia” o estômago.
Sofrem de algumas maladies como a Pavonite e a Medalhite, patologias estas que nada abonam aos membros de uma Fraternidade Iniciática como o é a Ordem Maçônica e que urge extirpar urgentemente antes que causem mais estragos à vida interna das Obediências e à imagem da Ordem no mundo profano, que já de si teve melhores dias…
É aliás um pouco por causa disto, que muitos dos Mestres Maçons que fazem parte das Obediências maçônicas não se revêem nas estruturas dos “Altos Graus”, porque não estão para aturar comportamentos (“desviantes”) deste tipo – já lhes basta o que sucede no mundo profano – e se afastam desta caminhada, não prosseguindo os seus “altos estudos maçônicos” e  mantendo-se apenas no terceiro grau para o resto da sua vida maçônica e apenas formando parte da sua ” loja azul”.
São decisões que tomam fruto daquilo a que assistem nas suas lojas e fora delas e que com as quais não concordam nem desejam em pactuar.
Já se esqueceram estas personalidades que detêm tais “baixos graus” porque razão vão à sua Loja?! Ou porque lá devem ir?
Ou será que os motivos que os levaram a participar na Maçonaria foram outros que não apenas exaltar as suas virtudes e combater os seus vícios? Submetendo a sua vontade aos seus deveres?!
E tentar desse modo adquirir novos conhecimentos na Arte Real?
E que é para realizar tais progressos nesta Arte que ingressam nos “Altos Graus”?!
Não estará na hora da Maçonaria no seu todo começar a olhar para esta gente da forma como efetivamente o merecem?
Pode a Maçonaria continuar a albergar gente com este comportamento, dito profano, no seu seio?
Gente esta que empurra para fora quem realmente faz falta e que trabalha?!
Impedindo que bons elementos prossigam o seu caminho, porque deste modo consideram que não será para si frutuoso persistir e andar a perder tempo e dinheiro!?
Não deverão os “Corpos Rituais” refletirem no que desejam e necessitam para a sua sobrevivência?! Bem como as Grandes Lojas e Grandes Orientes?
Será que apenas desejam gente que pague quotas, aumentando unicamente o número de membros nas suas fileiras ou se efetivamente o que precisam é de gente qualificada para fazer tal caminhada prosseguindo na senda de uma válida aprendizagem e de um efetivo labor maçônico, complementado por um aprimoramento moral e social dos obreiros filiados nas Lojas maçônicas?
Não serão estes os sentimentos tão caros à nossa Augusta Ordem?
Custa-me realmente assistir a um definhar da Maçonaria na sua generalidade, pois vejo que gente que ainda terá muito a aprender nas Lojas Simbólicas, pouco o fez, mas considera-se detentor de uma sabedoria tal por apenas ostentar um determinado grau ou por envergar um determinado avental “bonitinho”, denotando-se claramente que foram contagiados com as tais maleitas que citei anteriormente.
Gente esta, felizmente poucos (!) mas mesmo assim demasiados (!), que olha e encara os seus Irmãos de uma forma pouco fraternal e pensam que por deterem ou ostentarem tais “baixos graus” se podem sentir superiores a estes.
Nada disso meus Irmãos!
De fato não é por aí o caminho que necessita ser efetuado pelos maçons nem tal sequer beneficia a Maçonaria.

Temos de começar a seguir e viver os princípios que dizemos “da boca para fora”, tanto para dentro da Ordem como para o mundo em redor.
Cada vez mais estamos expostos ao mundo, seja pela mediatização da sociedade como pelos sinais do tempo e meus queridos Irmãos está na hora de começarmos a traçar outro rumo, novos caminhos, como fizeram os nossos antepassados quando transformaram a operatividade maçônica naquilo que é a “especulação” de hoje em dia.
Apenas transformando a Maçonaria, apoiando esta nas suas bases, as Lojas Azuis,  produzindo obreiros de qualidade, cooptando gente válida da sociedade, podemos hoje e no futuro, elevar a Ordem àquilo que ela realmente deve ser e àquilo que se espera dela!
Aproveito para renovar novamente uma afirmação que fiz anteriormente, felizmente que nem todos os maçons que são membros dos “Corpos Rituais” e das Lojas Simbólicas têm esse comportamento ou se revêem no mesmo, alguns inclusive quando se apercebem que têm de conviver com gente com uma atitude menos maçônica são os primeiros a abandonarem esses  “Corpos Rituais”, e em última instância, as  próprias Obediências, pois nada querem ter a haver nem desejam se relacionar sequer com essa gente e a sua conduta.
E é o fato de não quererem conviver com essa gente, que leva ao abandono da Ordem por parte de obreiros muito válidos para a Maçonaria, “verdadeiros maçons”, que não estão para aturarem ou pactuarem com tais comportamentos, sentindo que apenas andam, ou andaram, a perder o seu tempo pessoal e a gastar dinheiro que poderia ter outro fim que não este.
Este texto nada mais é que apenas uma chamada de atenção para o que existe e que não deveria existir sequer na Maçonaria.
E existe porque a Ordem é um espelho da sociedade em que se encontra, absorvendo aquilo que existe à sua volta; e mesmo tentando filtrar as impurezas que a circundam, por vezes se vê infestada por gente que poderia utilizar o seu tempo noutras atividades mas preferiram e decidiram entrar para a Maçonaria, como se tal lhes trouxesse algum proveito pessoal, social ou financeiro. E agora que entraram, mais difícil será os fazer sair!
Por isso é que urge apontar a porta da rua das Obediências a tais elementos ou então formá-los corretamente nas suas Lojas Simbólicas.
Formação! Formação! Formação!
Esse é o primeiro caminho a ser feito pelas Obediências e posteriormente pelos “Corpos Rituais”.
Somente assim a Maçonaria persistirá!
E devemos começar hoje, amanhã já será tarde demais…
E depois refletir-se se os custos associados serão mesmo necessários, pois a realidade existente é de que quase se pode constatar que existem “maçons de primeira” e “maçons de segunda”; porque uns conseguem cumprir com as suas obrigações pecuniárias mais facilmente que outros, os quais fazem algum esforço para o puder cumprir e que por esse motivo ficam vedados de perseguir o ensejo de prosseguir a sua caminhada pelos graus superiores da Maçonaria.
Apenas quebrando essa divisão e distinção entre maçons poderá a Maçonaria realmente nivelar os seus obreiros, cimentando as relações fraternais que devem existir entre todos.
Quando tal acontecer, somente a partir desse momento, poderei então eu considerar que afinal os “baixos graus maçônicos” serão mesmo os “graus azuis”, que se encontram na base do esquema gradativo da Maçonaria e não os graus que algumas personalidades envergam e que as fazem sentir como – hipoteticamente ! – superiores aos comuns dos mortais…
Até lá, ainda há muito caminho para fazer…
Mas assim o espero e desejo!

MAÇONARIA É CAMINHADA

Pode-se descrever a Maçonaria como instituição de formação cívica, moral, escola de deveres, ciência de busca da verdade divina, instituição orgânica de moralidade com objetivo de eliminar ignorância, realizar filantropia, combater vícios e inspirar amor na humanidade. Mas Maçonaria não é definível. Isto porque abrange todo o conhecimento humano conhecido e desconhecido. A marcha do simbolismo representa esta diversidade do pensamento como o sair da reta e retornar para ela. Cabe ao maçom duvidar de verdades, modifica-las e retornar fortalecido para a reta, em direção à sabedoria. O vaivém da dúvida define a Maçonaria Especulativa, a especulação do pensamento lato, a busca na racionalidade em respostas a questões que orientam e constroem o homem.
Inicialmente o maçom lida com o “conhece a ti mesmo”, de Sócrates. Caminha na reta, busca conhecer-se. Aperfeiçoa o intelecto na materialidade onde se identifica como indivíduo. Desbasta a pedra bruta em sua manifestação material. Especula em torno de um espírito de condição melhorada onde desenvolve a admiração ao conceito de Grande Arquiteto do Universo. É caminhada para a espiritualidade. Vê a luz da sabedoria que solicitou ver e inicia uma amizade com esta sabedoria. Num segundo estágio trabalha o “penso, logo existo”, de Descartes. Pensar é ser. O pensamento vai mais longe. Diagnostica o ser, transcende a si mesmo. Busca metas e conhecimentos fora da reta. Começa a especular e, com isso, adivinha outras belezas que o conhecimento ainda não determinou. Descobre que o pensamento busca a luz que solicitou e consubstancia riquezas que o tirano não pode usurpar. Busca o conteúdo interno da pedra que tende a transformar-se em pedra polida na relação direta com que especula sua realidade e razão de ser. Torna-se ainda mais amigo da sabedoria.
A Maçonaria Especulativa tem por objetivo espalhar os pensamentos da ordem maçônica para todos os cantos da Terra e é essencialmente conspiratória. Conspirações que, pelo pensamento especulativo iluminista mudou profundamente o desenho político nos séculos dezessete e dezoito onde promoveu a independência de países e fomentou a Democracia. Maçons especularam em templos maçônicos e realizaram magníficas obras em prol da sociedade. Não guardaram segredo da ação maçonicamente orientada. Divulgaram e agiram conforme o que debateram nos templos.
Maçom! Não permita que o fogo da Maçonaria Especulativa se apague dentro de ti. Não te restrinja ao cumprimento automático de rituais e estudos obrigatórios ou esqueça-se da essência do pensamento especulativo de onde nasce a capacidade de mudar a si mesmo e à sociedade. Teu dever é opor-se a obscurantismo, despotismo e tirania. Coloque em prática o que desenvolve em loja. Continue cada vez mais amigo da sabedoria, do grego “philos” “sophia”. Ser maçom é filosofar! Para divulgar a filosofia da Maçonaria use de todos os meios disponíveis de comunicação. Os pensamentos que iniciam dentro de loja devem continuar em todos os recantos e até no espaço cibernético. Não divulgar o que se especula e conspira em loja torna sem propósito o reunir-se em templos maçônicos. O maçom especulativo livre não permite que lhe calem ou subjuguem o direito de pensar e expor seus pensamentos especulativos onde quer que seja! Romper com esta obrigação tomada por juramento é falhar consigo mesmo e a sociedade.
A caminhada pelo simbolismo da Maçonaria é o ensino fundamental no Rito Escocês Antigo e Aceito. Outras portas são abertas, numa preparação que pode levar até quinze anos para se chegar ao doutorado e então iniciar outra caminhada, com outros alvos de servir a Maçonaria Especulativa, a si mesmo, aos irmãos e a sociedade. A caminhada para manter vivas as três colunas do simbolismo que suportam o Rito Escocês Antigo e Aceito honram e glorificam a criação do Grande Arquiteto do Universo. Isto não se faz sem tornar-se amigo íntimo da sabedoria e divulgar a filosofia da Maçonaria a todos os cantos da Terra.


Bibliografia:
  1. CAMINO, Rizzardo da, Simbolismo do Primeiro Grau, Aprendiz, ISBN 85-7374-076-0, primeira edição, Madras Editora limitada., 188 páginas, São Paulo, 1998;
  2. FAGUNDES, Morivalde Calvet, Uma Visão Dialética da Maçonaria Brasileira, Coleção Pensamento Maçônico Contemporâneo, primeira edição, Editora Aurora Limitada, 64 páginas, Rio de Janeiro;
  3. PIKE, Albert, Morals and Dogmas, primeira edição, 1076 páginas, Estados Unidos da América, 2008;
  4. QUADROS, Bruno Pagani, O Pensador do Primeiro Grau, Coleção Biblioteca do Maçom, ISBN 978-85-7252-247-2, primeira edição, Editora Maçônica a Trolha limitada., 184 páginas, Londrina, 2007;
  5. SOUTO, Élcio, O Iniciado, Drama Cósmico Maçônico, ISBN 85-7374-331-X, primeira edição, Madras Editora limitada., 106 páginas, São Paulo, 2001.

O RITO FRANCÊS, “ANTIGO OU MODERNO”?

o Rito não era nem “Moderno”, nem “Francês”, nem sequer “Antigo”. Esta unidade ou qualidade ritual foi quebrada em 1751, ao se criar a Grande Loja em Londres que se chamou “dos Antigos”, em oposição à primeira “dos Modernos” criada em 1717. Novos usos rituais foram adotados, mas somente na Inglaterra.
De um lado está a legitimidade da Maçonaria que vem através de rituais sem idade, atemporais, são tempos que poderíamos dizer estão suspensos em usos rituais imemoriais; e que por sua vez são a negação de toda a história: o universo e a decoração familiar da maçonaria que se desdobra dentro de uma a historicidade permanente, onde apenas conta o significado perene dos símbolos e dos ritos. Essa é a ambivalência da Maçonaria.
Mais realidade é inevitável, teimosa e, em parte, vem para roubar o ideal que nós expressamos. É inútil, e até mesmo vão, negar que a Maçonaria é uma instituição social que ao longo de toda a sua história foi se compondo e construindo com os valores de seu tempo, integrando as preocupações humanas e as especificidades culturais que pululam nas lojas que a compõem. Tudo isso, por outro lado, muito confrontado com questões de poder e os discursos de legitimação que não se relacionam apenas ao Templo de Salomão, ou às antigas tradições ambíguas, mas também em acreditar que ela tem uma autenticidade jurídica que justifica sua autoridade perante as instâncias que pretende assumir. Em uma palavra, ela se faz política.
Mas para estruturar seu discurso, a Maçonaria retira amplamente de sua suposta história o necessário para invocar um passado reconstruído, às vezes de patrocínios ilustres, mas falaciosos, de transições prestigiosas, e às vezes um tanto infundadas. Reconheçamos sem hesitação que depois de três séculos, o poder maçônico instrumentalizou amplamente a história maçônica sem ser observado pela mídia.
Os debates em torno do Rito Francês, assim chamado a partir do final do século XVIII e as controvérsias que suscita hoje resultam, portanto, surpreendentes aos olhos dos historiadores.
 A “Querela entre os Antigos e Modernos”, uma mistificação fundacional
Até o final do século XVII havia na Inglaterra certo número de lojas maçônicas operativas cujo número não podemos determinar claramente, mesmo depois de tanto tempo. Afinal de contas, tampouco eram tão numerosas, tanto é que só podemos identificar três delas como existentes no início do século, entre as quatro lojas fundadoras da Grande Loja de Londres de 1717. Duas delas, se diz, teriam sido fundadas no primeiro quarto de século, fato muito provável, embora não haja qualquer documento que possa atestar isso.
É ainda fica por estabelecer em qual loja foi iniciado Elias Ashmole em Warrington em 1646. Loja, por outro lado, aparece no cenário devido à circunstância de reunir uma dúzia de protagonistas que não voltariam a se reunir jamais e, portanto, vemos que se trata de uma associação composta por pequenos comerciantes e artesãos; todos eles essencialmente preocupados com a ajuda mútua, que são principalmente aqueles que fazem parte da assembleia que em junho de 1717 comparece à taverna O Ganso e a Grelha.
Embora o essencial é que aconteceu dentro dos dois anos seguintes à criação da Grande Loja, até aquele momento ainda não havia uma Obediência como tal, e com a chegada de um personagem icônico como Desagulliers, de origem francesa, mas integrado no mundo Inglês, ocorre um tornado nos ambientes maçônicos, ao mesmo tempo sociológico e político. Não se pode esquecer que os círculos intelectuais e aristocráticas da jovem monarquia de Hanover tomaram o poder no seio da instituição maçônica que nascia e a orientaram para um destino radicalmente novo e certamente imprevisto.
O primeiro problema que a Grande Loja precisou resolver, não foi muito que se acreditava o simbólico, nem o ritual; foi o estatuto puramente administrativo e político. Resta mostrar que esta instituição, a seguir dirigida por personalidades de alta extração desejava impor seu jugo às lojas que até então estavam mal organizadas e eram livres, e alegava ter uma legitimidade incontestável para se impor a tais fins ou pretensões ao restante das lojas.
As novas “Constituições” redigidas por Anderson, que certamente foi recrutado especificamente para este fim foram a peça central dessa estratégia, uma vez que (publicadas em 1723), estabelecem desde aquele momento um sistema de submissão das lojas ao mandato de uma Grão-Mestre e seus Oficiais.
É claro que as coisas não foram feitas sem dificuldade, e que as lojas espernearam na hora de serem obrigadas a entregar seus Arquivos- ou seja, sua memória – a alguns Irmãos, antes preferiam algumas delas entregar seus preciosos manuscritos para um novo “auto da fé” que confiá-los ao novo poder Obediencial.
Mas acima de tudo, não devemos esquecer que a obra de Anderson não é apenas um conjunto de textos regulamentares, que começam com uma longa e interessante história da Construção. É sim, sem dúvida, a parte mais reveladora do livro das “Constituições”, o resto é mais copioso.
A operação de comunicação de Desagulliers e Anderson reside em que o interesse de todos eles era se beneficiar da proteção dos poderosos.
A tese trazida como essencial e em poucas palavras é que a Grande Loja nunca teve a intenção de falar sobre a tradição dos Construtores e tampouco de uma nova criação imposta por uma classe social privilegiada surgida nas lojas- para dizer de forma suave- tal questão foi apagada e nunca expressa como tal.
Apenas Anderson é quem deplora em seus receituários históricos, como artifício, que a tradição que se desenvolve sobre pesados argumentos históricos já conhecidos para convencer seus leitores de que a Grande Loja está adormecida porque seus líderes a haviam negligenciado depois de décadas, e a apresenta em seus melhores desejos como a era da paz religiosa e civil, voltando a “despertar” e retomar o lugar que sempre tinha sido seu para o maior dos bens e da própria maçonaria.
Embora os argumentos certamente sejam um pouco grosseiros, mas a operação de comunicação foi um sucesso, pois não parece que a demonstração histórica tenha convencido ninguém, mais parece que o interesse de todos é ter a proteção dos poderes e atender ao trono que em breve chegará. Digamos que a Grande Loja está mais preocupada com a auto promessa de seu fabuloso destino.
Nas passagens, Anderson – ou seus apoiadores por meio dele – criará um precedente em Maçonaria para conquistar uma certa hegemonia. Este conhecimento é o que vai sair como um bumerangue que depois de trinta anos retorna à Grande Loja.
Nesta fase da história maçônica, ainda não se falava nem de “Modernos” ou de “Antigos”, mas é verdade que havia uma certa inclinação cultural própria da sociedade britânica e da maioria dos homens e dos tempos e entre eles dos maçons – que pensam que tudo remonta a um passado antigo, que tinha sido sempre prestigioso e muito respeitável, e que reaparecerá. Digamos que Anderson conhecia bem seus paroquianos a quem dirigiu suas Constituições.
O segundo ato desta comédia se desenrola no final de 1740 em Londres, mas com novos atores: os irlandeses. Uma onda de imigração irlandesa que chega a Londres em 1740, que vêm à procura de um trabalho no território de seus inimigos, os ingleses- o que constitui uma suprema humilhação-, que vêm principalmente de meios mais modestos, entre eles se encontra um bom número de maçons.
É preciso dizer que as origens da Maçonaria especulativa na Irlanda estão cheias de mistério. A documentação é um tanto pobre, embora se saiba de uma loja essencialmente composta por estudantes que em 1688 se reuniu no famoso “Trinity College” de Dublin. Será preciso esperar até 1725-1730 para que seja constituída uma Grande Loja da Irlanda, que vai se impondo pouco a pouco sobre o resto do modelo inglês. Destaquemos que as Constituições de Pennell, adotadas em 1730 pelos maçons irlandeses são uma cópia quase “textual” das Constituições de Anderson de 1723.
A Maçonaria irlandesa, em que pese suas Constituições fossem modeladas sobre as de Anderson, principalmente em alguns pontos, adota diferentes usos rituais. E que os pobres maçons irlandeses que se reencontram em Londres nesses anos 1740 não recorrem aparentemente ao acolhimento fraternal de seus “irmãos ingleses” – Xenofobia anti-irlandesa ou segregação social?
A questão não é uma trincheira, mas os irlandeses tinham certamente a vontade de bom grado de se integrar nas lojas de Londres, se eles próprios não tivessem se colocados contra a Maçonaria Inglesa. Não nos esqueçamos de que havia na Irlanda, toda uma colônia dominada pelos colonos vindos da Grã-Bretanha, e seus quadros dirigentes eram bem recebidos pela aristocracia Unionista intimamente ligada ao poder. Alguns deles serão para o resto, e sucessivamente Grãos Mestres em Londres, Dublin … etc.
No entanto, a Maçonaria irlandesa tinha certos pontos rituais em que adotava usos diferentes daqueles empregados ou desenvolvidos na Inglaterra. Maus intérpretes deduziram uma profunda diferença de natureza entre as duas maçonarias – e nada disso é confirmado nos textos da história -, finalmente será criada em solo Inglês a sua própria obediência. Entre 1751 e 1753 foi estabelecida uma segunda Grande Loja Inglesa “segundo as antigas instruções” e batizada Grande Loja dos “Antigos” em contraposição, como já dissemos à primeira, a dos “Modernos”.
A argumentação é simples. Está o tema andersoniano que acolhe por sua própria conta a nova Grand Loja não como uma reintrodução de uma “antiga” Maçonaria, mas que vem para nos dizer que é mais “autêntica e venerável ” e que se encerra ainda mais nas pretensões de Anderson, relativa à antiguidade da Grande Loja, cuja reivindicação de antiguidade por esta nova Obediência não se funda em nenhuma corrente historiográfica convincente. Ao final de sessenta anos de oposição, com episódios grotescos e jogos intelectuais, finalmente, em 1813, as duas Obediências se fundem para formar a Grande Loja Unida da Inglaterra.
Depois dessa época é quando podemos dizer que existem duas tradições simbólicas e rituais no mesmo universo maçônico, e em função dessa dualidade é que podemos dizer que o Rito Francês deriva da Grande Loja que foi qualificada como “Moderna”, embora toda esta terminologia seja muito tardia, e não existia, portanto, o nome de Rito Francês, mas simplesmente Maçonaria. E ela logo terá uma longa prosperidade na França, e como tal não se definirá como uma alternativa ao Rito Antigo, já que este último também não existia, e podemos dizer que tanto as lojas inglesas quanto as francesas praticavam substancialmente a mesma Maçonaria.
O RITO MODERNO OU RITO FRANCÊS, UMA TRADIÇÃO INDIVISA
Nós realmente temos que dizer que nem sempre temos certeza de quando foi criada a primeira loja na França. É mais do que provável que os maçons em solo francês fundaram suas próprias lojas, de onde vem, sem dúvida a lenda de St. Germain en Laye. É possível, de fato, que dos regimentos jacobitas vindos para a França depois de 1690, pois tinham entre as tropas vários maçons, mas não deixa de ser anedótico, uma vez que a primeira loja de que temos certeza foi criada em Paris em 1725, e está claro que todos os seus membros eram britânicos, seu desenvolvimento e existência se pode dizer que foram discretos, também o foram em relação aos seus membros.
É em 1736 quando boatos começam a surgir em Paris sobre os “freemasons” e será finalmente em 1737, quando aparecem as divulgações dos usos maçônicos com o famoso Receptión d’un free-mason, amplamente difundida pelos serviços do tenente de polícia René Hérault, que acabou por colocar a maçonaria sob as luzes da atualidade. Será necessário então esperar até 1738 para que se designe o primeiro Grão-Mestre francês: Louis Antonie de Pardaillan de Gondrin, Duque de Antin, amigo de infância de Louis XV.
Durante todos esses anos, os primeiros passos da maçonaria franceses foram essencialmente dados por diversos súditos britânicos envolvidos por sua vez, em diferentes graus e em diferentes atitudes – na grande disputa dinástica e religiosa que eclodira após a destituição dos Stuarts na revolução gloriosa de 1688. Depois disso não creio que o resto dos exilados permaneceu em terras parisienses. Além disso muitos deles terão uma grande importância na Inglaterra, um dos mais influentes da época era Charles Radcliffe, Earl of Derwentwater, que encerrará sua carreira sob o machado do carrasco em 1746, um mártir de sua fé católica e estuardista, que foi um dos principais fundadores da Maçonaria na França.
O mesmo pode-se dizer da história da Maçonaria antes de 1751, estamos diante de uma comunidade permanente de interesses entre Paris e Londres; é como se houvesse uma só Maçonaria, e as diferenças que se podia observar entre duas lojas parisienses eram as mesmas que podiam ser observadas entre as lojas Goose and Gridiron dentro de Saint Paul Churchyard, ou a de Louis d’Argent da Rue des Boucheries de Paris, que figuram em 1735 no quadro de membros da Grande Loja de Londres.
Recordemos que Montesquieu é iniciado em 1730 em Londres, na loja Horn e que quatro anos mais tarde, em Paris, assiste a uma sessão da loja de Aubigni-Richmond onde se reúne a fina flor da aristocracia da capital francesa, sob a presidência de Jean-Théophile Desaguliers, antigo Grão-Mestre na Inglaterra, chegado a Paris vindo de Londres. Nessa época, os maçons em ambos os lados do Canal da Mancha- ou Canal Britânico – não se sentiam nem do Rito Francês nem do Rito Moderno, digamos que nada se sabia dele; eles praticavam todos a “Maçonaria” aparecida em Londres no final do século XVII, sob a bandeira da primeira Grande Loja que por um longo tempo seria a única.
Durante uma época ocorreu a criação de usos e os rituais que proliferaram pouco a pouco e de forma simultânea nos dois países, de modo que nos parece abusivo pretender como se pretende dizer que “a França é a filha mais velha da Maçonaria”, quando foi uma espécie de co-fundação da primeira tradição maçônica. A abundante documentação que nos vai chegando nos permite dizer e afirmar isso.
Os mais antigos rituais maçônicos conhecidos são escoceses e remontam a um período entre 1696 e 1710. A análise do ritual e a decoração da loja, para os dois primeiros graus apenas se têm incertezas, e no revelam um mundo sem surpresas. As divulgações inglesas dos anos 1720-1725[1] são fragmentadas e, portanto, sujeitas a alguma cautela, embora tenham plena conformidade global com os rituais escoceses.
Quando chegou à grande divulgação, a de Pritchard em 1730, ela introduziu a novidade do Grau de Mestre fundado sobre a lenda de Hiram, mas os elementos rituais dos dois primeiros graus que expressam não deixam de ser o modelo clássico. Entretanto, em 1737, a primeira divulgação maçônica francesa citada anteriormente, nos expõe os mistérios da recepção do candidato nos primeiros graus – Aprendiz e Companheiro – dentro de uma coerência semelhante e comparável aos textos ingleses precedentes.
Finalmente, as divulgações impressas se sucedem na Franca a partir de 1744 e, geralmente, não mostram inovações importantes. As célebres gravuras de Lebas destinadas a ilustrá-las em 1745, nos permitem penetrar de uma forma viva em uma loja de Desagulliers, de Antin, de Montesquieu e comprovar sem nenhuma dificuldade o fato de ali encontrar os sinais … e por essa mesma razão podemos dizer que a loja é universal em qualquer lugar. A Maçonaria é ritual e simbolicamente una, por isso se pode falar de um “Ritual fundamental”
Um último texto que também fornece um testemunho importante é uma obra intitulada Le Maçon Démasqué” publicada em 1751. Esta divulgação se apresenta como a exposição de um trabalho de uma loja londrina, mas talvez de língua francesa; e nela se observa que há muitos pontos comuns, como revelam as diferentes obras impressas em Paris alguns anos antes, prova de podemos dizer que até então não existia nada mais do que uma maçonaria. Tanto é assim que o dado de 1751 não é qualquer data, é quando a segunda Grande Loja foi fundada pelos “antigos” fazendo finalmente sua aparição, com ela a unidade simbólica e ritual das lojas inglesas se rompe, enquanto que as últimas lojas francesas permanecem fiéis à tradição recolhida e mantida durante vinte e cinco anos.
Por uma ironia da história, a Grande Loja Unida da Inglaterra, que foi fundada em 1813, com base nos usos da Grande Loja dos “Antigos” que prevaleceram sobre os diferentes pontos que partiam da primeira tradição maçônica inglesa da Grande Loja de 1717, cujas raízes ou presença não permanecem a não ser no Rito Moderno, constituindo-se este em uma espécie de conservatório dos mais antigos usos conhecidos da Maçonaria especulativa.
OS FUNDAMENTOS SIMBÓLICOS E RITUAIS DA PRIMEIRA MAÇONARIA FRANCESA
O plano da loja é orientado de leste para oeste e é o venerável que se denomina “Mui Venerável” na tradição francesa – senta-se no Oriente, e o faz diante de uma pequena mesa sobre a qual repousa a Bíblia ou apenas o evangelho de São João, ou um único exemplar do prólogo do mesmo evangelho.

No decurso dos trabalhos, a espada do Venerável é colocada sobre o texto. Três castiçais ou um castiçal de três braços estão ao seu lado. Nada de compasso e esquadro sobre a Bíblia ou o Evangelho. Ao contrário, encontra-se uma almofada pousada no chão ou sobre um móvel em forma de genuflexório diante da mesa do Venerável para que o candidato se ajoelhe e faça a promessa de sua Obrigação. Um esquadro é colocado ou está bordado na almofada. O compasso será aquele que o candidato portará, com uma ponta contra o seu coração para prestar sua promessa ou juramento.
Os dois Vigilantes colocam-se no Ocidente. Esta é a posição mais antiga que tem origem no desdobramento de um único vigilante que existia nos rituais escoceses; é um landmark característico do Rito Moderno. No último quartel do século XVIII, as lojas chamadas escocesas “trabalhavam nos três primeiros graus, e fizeram sua aparição no sul da França e depois em Paris, mas pode-se observar que as lojas conservaram a referida posição “francesa e moderna” dos Vigilantes. A localização deles, um a oeste e uma ao Sul, típica dos “Antigos” não será conhecida na França até o surgimento dos novos rituais elaborados pelas lojas azuis do Rito Escocês Antigo e Aceito em 1804.
A segunda marca ou característica específica do Rito Moderno é a disposição dos grandes lustres no centro da loja, dois a leste e uma a Sudoeste. O exame das instruções permite estabelecer que os candelabros não estão associados aos Vigilantes da loja, uma vez que simbolizam exclusivamente o Sol, a Lua e o Venerável Mestre da Loja.
A terceira característica notável do sistema simbólico dos Modernos é a presença do piso quadriculado ou traçado simbólico no espaço delimitado pelos três grandes lustres. O exame dos documentos iconográficos disponíveis entre 1724 e 1751 mostra que tanto na França quanto na Inglaterra, os elementos essenciais do pavimento mosaico ou quadro de loja – comum aos dois primeiros graus – é que sua disposição segue substancialmente idêntica, de um lado e de outro, com numerosas variações de detalhes. Os “Antigos” ignoram o painel de loja.
Finalmente dizer que o Rito Francês originalmente associa a coluna Norte e a letra ao Aprendizenquanto que o Companheiro tem a Coluna do Sul e a letra como referência. Adotou-se a fórmula inversa à dos “Antigos”. A partir de 1751 acusou-se os Modernos de ter invertido deliberadamente a ordem das letras e das colunas, conforme nos explica René Desagulliers em seu livro: Les deux grandes colonnes de franc-masonnerie… 1997.
O restante das lojas “escocesas” do final do século XVIII na França mantiveram a disposição moderna dos Vigilantes, e mantiveram a ordem das letras e as Palavras Sagradas. Somente os rituais dos graus simbólicos do REAA a partir de 1804 serão conhecidos na França, a ordem B e J será conhecida através do Guide de maçons Ecossais.
Em relação ao desenvolvimento das cerimônias durante os anos de 1720-1730 mostra-nos com grande simplicidade e brevidade, a cerimônia de Aprendiz – Companheiro mal ultrapassa um quarto de hora, enquanto se dedicava, segundo certos textos, uma hora à “comunicação de suas reflexões“. Sabemos que entre 1720 e 1730, a cerimônia do Aprendiz se realizava em uma hora e não havia alusões aos elementos, nem provas ou comentários.
O candidato com os olhos vendados era admitido em loja e se fazia uma viagem com base em voltas conduzido pelo Segundo Vigilante, por exemplo, colocava-se um pouco de resina nas luzes dos candelabros para causar ruído de crepitação e desse modo assustar o postulante, e não se realizavam provas, nem alusões e, é claro, nenhum comentário.
Em seguida, o recém iniciado prestava sua Obrigação dando três grandes passos orientados dentro da loja, marchando sobre o pavimento de mosaico da loja que, aliás, não é nenhuma zona proibida. A mão sobre o evangelho, o joelho em esquadro, a ponta do compasso no peito direito. Desse modo se jurava guardar segredos e recolher a luz. Por outro lado, sua instrução começava naquele momento e concluía quase no mesmo tempo que a cerimônia. Na maioria dos casos, o recém-iniciado também recebia o grau de Companheiro. Para isso, era necessário dar três voltas novamente, nas quais se lhe comunicavam os novos segredos, incluindo o sinal do grau. A nova simbologia que se dava no referido grau era a letra G e seu significado “Deus ou Geometria”.
Pode-se considerar que a descrição que fazemos corresponde à que realizavam os maçons ingleses e franceses antes de 1750 para os dois primeiros graus, esta assembleia de comunicação simbólica e ritual é o que permite caracterizá-la como Rito Moderno, que não era assim chamado por seus detratores na década de 1750, sendo qualificado como tal mais tarde na França, como Rito Francês.
Surgem assim algumas últimas perguntas: A especificidade do Rito Francês ou Moderno reside apenas nas características simbólicas e rituais? A oposição aos “Antigos” não revestiu com esses planos simbólicos um dos maiores antagonismos intelectuais mais importantes da época…?
Finalmente, o Rito Francês como um “rito de liberação portador de valores humanistas herdados do Iluminismo e, como tal, não é precursor da liberdade absoluta de consciência? De fato, para finalizar, é preciso examinar a última instrumentalização da história maçônica operada a propósito do Rito Francês. A última, mas nem por isso a menor.
O RITO FRANCÊS: UMA IDENTIDADE ESTRUTURAL OU IDEOLÓGICA
O Rito Moderno Inglês, a mais tarde o Rito Francês no continente é o mesmo durante quase sessenta anos de uma luta decisória, mas sem muito objeto contra o Rito Antigo. O conflito foi puramente Inglês, e podemos dizer que teve pouco impacto na França, embora a “bricolagem” historicista de alguns autores tenha contribuído para rotular o conflito como insular, dando, assim, ao Rito Moderno características de origem que seus protagonistas recusariam.
Este não é o lugar para expor em detalhe a famosa querela, embora existam certos elementos que podem ser evocados. Os Antigos denunciavam uma lista de censuras que lhes dirigiam os responsáveis dos Modernos, responsáveis aos olhos de seus oponentes por alterar o depósito inicial da tradição maçônica que os Antigos afirmavam respeitar escrupulosamente.
Tenho para mim que os ataques dirigidos à Grande Loja dos Modernos são muito mais relativos ao abandono de orações nas cerimônias e ao esquecimento das festas de São João. São dois exemplos que comprovam a ideia de que os Antigos representam um movimento  religioso e conservador em oposição aos “Modernos” reputados como mais abertos, tolerantes e liberais, ou em uma palavra “mais modernos”. Sem esquecer que o epíteto atribuído à primeira Grande Loja foi sempre rejeitado por esta, considerando-o como um insulto.
Tudo isso mal resiste a um exame, conforme demonstraremos, já que essas acusações são infundadas. Nada de ideológico distingue realmente os Modernos dos Antigos e, notavelmente, nada relativo às motivações religiosas; a razão de sua oposição inicial é, de certo modo, mais socioeconômica que “étnica”, referindo-nos aos Ingleses e irlandeses, que são dois povos diferentes. Algumas décadas mais tarde, a Grande Loja dos Antigos torna-se mais puramente inglesa que a primeira, assim como sua estrutura sociológica. A fusão final das duas Obediências se produz por tudo isso e os “Artigos da União de 1813″ não se baseiam em considerações simbólicas e rituais, já que isso não era o que separava as duas Obediências.
No final de 1730, o Rito Moderno na França, é aquele que existe como “maçonaria”, que reafirma sua independência e que será aquele que marca seu próprio destino como brilhante por toda a Europa. Eu não falo de Guerra do Rito Francês antes dos últimos anos do século XVIII ou início do século XIX; é somente para distinguir, por exemplo, o Rito Escocês Retificado, o Rito Escocês Filosófico, não esquecendo, por último, de chegar ao REAA; lembremos que as expressões “Rito Francês” ou Rito “Moderno” não aparecem nem nos estatutos do Grande Capítulo Geral da França de 1784 nem no Régulateur.
É preciso definido então que o Rito Francês é sempre um sistema simbólico e ritual com uma grande identificação com o Grande Oriente de França, herdeiro institucional da primeira Grande Loja na França. Também poderíamos perguntar se essa última filiação também tem um significado ideológico? Certamente não. Louis de Clermont praticava o Rito Moderno, mas certamente não era um revolucionário, mas sim foi o último Administrador do GODF antes da Revolução e Montmorency-Luxembourg (Rito Francês) foi o primeiro a emigrar da França.
Confundir a ação histórica do Grande Oriente da França com uma certa vocação “messiânica” do Rito Francês é um absurdo, e pode trazer múltiplos exemplos, embora não seja esse o tema deste artigo. Na segunda metade do século XIX, o GODF se identifica com o combate secular e republicano que é uma coisa com muita honra e o Rito do GODF, o “Rito Moderno” ou Francês dessa época, de Louis de Clermont e de Antin é outra coisa… e nada têm a ver.
O Rito Francês transmite as mais antigas tradições rituais e simbólicas da Maçonaria especulativa. É, digamos que sim, uma ideia fundacional, tal como qualquer historiador pode constatar. Confundir a ação histórica do GODF, – valorosa e nobre – com uma certa vocação “messiânica” do Rito Francês que se presume destinado desde sua origem a defender o ideal secular e estabelecer a República, é um absurdo que o historiador não pode deixar de divulgar.
Sem esquecer a anedota que no final do século XIX, existe uma obediência ultra progressista, fortemente impregnada de anarco-sindicalismo que rejeita os “Altos Graus” e é favorável à iniciação de mulheres, como faz agora e projeta o Grande Oriente de França. Esta obediência tão “avançada e progressista” não era outra senão a Grande Loja Simbólica escocesa que praticava o REAA. A verdade é que a história é implacável.

Publicado em:
http://www.ritofrances.net/2010/02/el-rito-frances-antiguo-o-moderno-i.html
Tradução livre do francês por Victor GUERRA MM.: do RF do GODF

O início da Maçonaria na França


François Marie Arouet, Voltaire, o demolidor de mitos, desapareceria logo depois de iniciado na Loja “Neuf Soeurs”, em 1778, no mesmo ano em que, coincidentemente, desaparecia Jean Jacques Rousseau, sendo, ambos, os intelectuais que mais influenciaram o pensamento da sociedade francesa – – – e da mundial – – – nas épocas posteriores. Eles mostravam, todavia, grandes diferenças de pensamento. Voltaire tinha, por base de sua obra, o racionalismo, como, no dizer de Diderot, um verdadeiro filósofo setecentista, que se conduz pela razão, juntando, ao espírito de reflexão e de justeza, os costumes e as qualidades sociais. Isso o coloca em oposição à inteligência mística de Rousseau, filósofo e moralista, nascido em família calvinista e convertido, ainda adolescente, ao catolicismo. Voltaire tem o melhor do seu pensamento exprimido no “Dictionnaire Philosophique”, de 1764, no “Lettres Anglaises”, de 1734, e nos diversos contos, entre os quais “Cândido”, de 1754, é sua obra prima. Rousseau tem, como sua obra fundamental, “Du Contrat Social”, onde formula a teoria do Estado baseado na convenção entre os homens, defendendo o princípio da soberania do povo. Publicada em 1762, essa obra, junto com o restante da produção literária de Rousseau, teve grande influência revolucionária, por exprimir as injustiças sociais da época, numa crítica violenta ao cristianismo dogmático e ao ceticismo filosófico.
Assim, a obra de Rousseau foi muito mais importante, no ideário da Revolução Francesa, do que a de Voltaire, que, dentro da atitude racional da inteligência, desejava não a revolução, mas a reforma das instituições monárquicas, pregando a tolerância ideológica e defendendo os direitos civis. Ambos, entretanto, influenciariam, um século depois, a grande reforma institucional de 1877, no Grande Oriente da França, que sepultou o dogmatismo, combatido por Rousseau, e implantou a tolerância ideológica, pregada por Voltaire.
Em 1778, ano da morte de ambos, havia 554 Lojas no território francês, surgidas da primeira Loja genuinamente francesa, criada, em Paris, a 3 de abril de 1732, já que, antes, as existentes eram mais britânicas, surgidas na esteira do séquito dos Stuarts, refugiados na França, após a revolta de 1649. Depois dessa primeira Loja, outras foram sendo criadas, ocorrendo, no caso, um fato importante, em setembro de 1734 : no dia 7 desse mês, um jornal de Londres relata que, no castelo da duquesa de Portsmouth, em Paris, Charles Lennox, duque de Richmond, junto ao qual se encontrava Montesquieu, procedeu à recepção de muitos neófitos da mais alta nobreza francesa. A 20 de setembro de 1735, nova reunião, com a presença de Théophille Désagulliers – – – um dos fundadores da Premier Grand Lodge, em Londres, em 1717 – – – e lord Waldegrave, embaixador de Sua Majestade britânica, ao lado de Montesquieu. A Maçonaria, assim, espalhou – se pelo território francês, no século XVIII, sob a égide de Montesquieu, o grande filósofo e autor de “´L´Esprit des Lois” (O Espírito das Leis), obra de fundamental importância no desenvolvimento da Ciência Política.
Em 1737, cinco Lojas existiam em Paris. Em 1741, já eram vinte e duas, quando a propaganda maçônica já atingia a província, tendo sido fundada uma Loja em Lions, em 1740, além de outras em Rouen, Caen, Nantes, Bordeaux, Montepellier e Avignon. Em 1738, o duque d´Antin é nomeado Grão – Mestre vitalício dos maçons franceses, embora ainda não houvesse, oficialmente, uma Obediência francesa, o que só aconteceria em 1765. Em 1743, Henri de Bourbon, conde de Clermont, o sucede, apesar dos muitos votos dados ao príncipe de Conti e ao marechal de Saxe. Um outro nobre sucede ao conde de Clermont, em 1771, o duque de Chartres, que, com a morte de seu pai, tomou o título de duque de Orleans, cuja cadeira de Grão – Mestre é conservada no museu do Grande Oriente da França e cujo retrato, com todas as insígnias da Ordem, acha – se no castelo de Chantilly.

O Grande Oriente e o Rito Moderno 

A Maçonaria francesa passaria, porém, por grandes vicissitudes. A federação denominada Grande Loja da França, oficialmente existente a partir de 1765, para reunir as Lojas esparsas, não chegara a uma boa gestão, o que fez com que, em 1771, ocorressem reuniões destinadas a preparar uma nova organização, culminando, a 24 de dezembro daquele ano, com a assembleia das Lojas, que, depois de declarar extinta a antiga Grande Loja, anunciava que ela era substituída por uma Grande Loja Nacional, que seria denominada, dali em diante, Grande Oriente da França. A 17 de junho de 1773, a Grande Loja protesta, declarando o Grande Oriente cismático, degradando o título de maçom de todos os componentes deste. Sem se preocupar com esses ataques, o Grande Oriente persiste, sendo solenemente instalado a 24 de junho de 1773.
E foi tão grande o desenvolvimento do Grande Oriente, que, das 547 Lojas francesas existentes em 1778, 300 estavam sob a sua jurisdição e ele mantinha correspondência com 1.200 Lojas estrangeiras. Nessa altura já existia o Rito Francês, ou Moderno, que havia sido criado em 1761, constituído a 24 de dezembro de 1772 e proclamado pelo Grande Oriente, a 9 de março de 1773, chegando, já na época da Revolução Francesa, à maior importância, dentro do Grande Oriente da França. E desde essa época, começava a rivalidade entre o Grande Oriente e a Grande Loja inglesa, que exigia ser reconhecida como Grande Loja Mãe, embora isso não fosse mais do que uma satisfação moral, não criando laço de subordinação. O Grande Oriente desejava tratar de igual para igual, sob todos os pontos de vista e solicitava que as Lojas anteriormente fundadas, sob patente inglesa, lhe fossem repassadas, com o que Londres não concordava. Embora a Grande Loja inglesa reconhecesse o Past – Master e o Royal Arch, como “complementos do mestrado”, considerava irregulares os Altos Graus escoceses, que haviam, anarquicamente, proliferado na França, causando desordem. E o Rito Moderno nasceu, exatamente, do desejo do Grande Oriente de remediar a situação, perseguindo uma política de unidade, aceitando os diferentes ritos, à qual Londres fez oposição.
O rito, embora criado sob moldes racionais, seguia a orientação dos demais, em matéria doutrinária e filosófica, baseada, entretanto, na primitiva Constituição de Anderson, com tinturas deístas, mas largamente tolerante, no que concerne à religião, como se pode ver na primeira de suas Antigas Leis Fundamentais (Old Charges): “O maçom está obrigado, por vocação, a praticar a moral; e, se bem compreender os seus deveres, jamais se converterá num estúpido ateu nem em irreligioso libertino. Apesar de, nos tempos antigos, os maçons estarem obrigados a praticar a religião que se observava nos países que habitavam, hoje crê – se mais conveniente não lhes impor outra religião senão aquela que todos os homens aceitam e dar – lhes completa liberdade com referência às suas opiniões particulares. Essa religião consiste em serem homens bons e leais, ou seja, honrados e justos, seja qual for a diferença de nome ou de convicções”.
A Revolução Francesa – – – da qual a Maçonaria, nas palavras de Henri Martin, foi o laboratório – – – não interrompeu totalmente os trabalhos do Grande Oriente. a Loja “La Bonne Amitié”, de Marmande, recebeu sua constituição a 20 de dezembro de 1792; mesmo no auge do Terror, três Lojas da capital, “Le Centre des Amis”, “Les Amis de la Liberté” e “la Martinique des Frères Réunis” não deixaram de promover reuniões. Mas houve uma grande diminuição da atividade maçônica, prejudicando as relações com a Grande Loja inglesa. Passado o auge do movimento, Roettiers de Montalau – – – cujo retrato orna a sala do Conselho da Ordem, em Paris, acima da cadeira do Presidente – – – empenha – se, a partir de 1795, na reconstituirão do Grande Oriente, tentando conciliá – lo com a Grande Loja. Graças aos seus esforços, a 21 de maio de 1799, as duas Obediências redigem um tratado de união, completando a união maçônica na França, a qual pouco iria durar, já que, em 1804, ela seria comprometida pela introdução do Rito Escocês Antigo e Aceito, de 33 graus, com a fundação do Supremo Conselho do conde de Grasse – Tilly (o primeiro Supremo Conselho foi fundado em Charleston, Carolina do Sul, EUA, em 1801).

 A regressão dogmática

Em 1815, ocorreria a regressão dogmática, que tanto influiria nos destinos da Maçonaria francesa: a Grande Loja Unida da Inglaterra, que surgira em 1813, da fusão da Grande Loja dos “Modernos” (de 1717) e a dos auto – denominados “Antigos”, de 1751, alterava a primitiva Constituição de Anderson, tornando – a absolutamente dogmática e impositiva, como se pode ver no texto da primeira das Antigas Leis (que, aí, deixou de ser antiga lei):
“Um maçom é obrigado, por seu título, a obedecer à lei moral e, se compreender bem a Arte, nunca será ateu estúpido, nem libertino irreligioso. De todos os homens, deve ser o que melhor compreende que Deus enxerga de maneira diferente do homem, pois o homem vê a aparência externa, ao passo que Deus vê o coração. Seja qual for a religião de um homem, ou sua forma de adorar, ele não será excluído da Ordem, se acreditar no glorioso Arquiteto do Céu e da Terra e se praticar os sagrados deveres da moral….”
Ou seja: ao liberalismo e à tolerância da original compilação de Anderson, foram sobrepostos os teísmo pessoal, o dogmatismo e a imposição, incompatíveis com a liberdade de pensamento e de consciência.
Apesar disso, quando o Grande Oriente promulgou, em 1839, seus primeiros “Estatutos e Regulamentos Gerais da Ordem”, estes conservavam o melhor da tradição da Maçonaria dos Aceitos, dentro do espírito da original Constituição de Anderson, de 1723, como se pode ver em seus três primeiros artigos, sem qualquer dogmatismo:
“Art. 1º – A Ordem Maçônica tem por objeto o exercício da solidariedade, o estudo da moral universal, das ciências, das artes e a prática de todas as virtudes.
Art. 2º – Ela é composta de homens livres, que, submissos às leis, reúnem – se em Sociedade constituída de acordo com estatutos gerais.
Art. 3º – Não pode alguém ser maçom e gozar os direitos inerentes a esse título:
1. se não tiver 18 anos completos, se não for livre e de bons costumes e se não obteve o consentimento de seu pai, ou de seu tutor; essa última condição só será exigida até à idade de 21 anos;
2. se não for livre e honrado;
3. se não for domiciliado há pelo menos seis meses no local em que se encontra a Loja à qual se apresenta;
4. se não tiver grau de instrução necessário para cultivar sua razão;
5. se não for admitido nas formas determinadas pelos Regulamentos e Estatutos Gerais”.
Todavia, em 1849, por obra e graça dos partidários de uma reaproximação, que degelasse As relações com a Grande Loja Unida da Inglaterra, eram reformados esses estatutos – – – e transformados em Constituição – – – sendo incluídos, neles, as cláusulas inspiradas pela revisão de 1815, das Constituições de Anderson, como se pode ver no texto aprovado:
“Art. 1º – A Francomaçonaria, instituição essencialmente filantrópica, filosófica e progressista, tem por base a existência de Deus e a imortalidade da alma…”
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Art. 3º – Para atingir esse objetivo, eles (os maçons, referidos no Art. 2º) devem, respeitando a consciência individual, empregar todos os meios de propaganda pacífica, dos quais os principais são o exame e a discussão de diversas questões que podem esclarecer os espíritos e, sobretudo, conciliar os corações”.
A incoerência salta aos olhos, pois, à exigência dogmática do Artigo 1º, era aposto, no Artigo 3º, o respeito à consciência individual. Diante disso, foi feita, em 1865, uma pequena alteração, sem mudar o texto dogmático, na parte referente à liberdade de consciência, assim redigida:
“Ela (a Maçonaria) vê a liberdade de consciência como um direito próprio de cada homem e não exclui a ninguém por suas crenças”.